Crítica: O Passado, de Asghar Farhadi

Escrito e dirigido pelo iraniano Asghar Farhadi, do excelente A Separação, O Passado é um longa que gira em torno da mesma temática do vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2012. Ahmad (Ali Mosaffa) é um iraniano em viagem à França para reencontrar sua ex-esposa, Marie (Bérénice Bejo), e oficializar definitivamente seu divórcio. Ela, mãe de duas filhas de um casamento anterior, está em uma nova relação com Samir (Tahar Rahim), que também é pai de um garoto mais ou menos da idade de sua filha mais nova.

A chegada de Ahmad, portanto, é um pouco conturbada, mas calculada propositalmente por Marie. A questão é que ela passa por alguns problemas na configuração de sua nova família. Sua filha adolescente não aceita esse novo relacionamento e a chegada de um novo padrasto. Ainda mais depois que a ex-mulher de Samir tentou cometer suicídio, possivelmente influenciado pela relação de sua mãe com o rapaz, e permanece em coma. Assim como em A Separação, esse drama paralelo dita o tom da discussão principal, bem como a influência das crianças que, em geral, dificultam um processo de divórcio.

Embora Ahmad não seja o pai das meninas, elas ainda são bastante ligadas a ele, o que faz com que permaneça esse virtual laço familiar, assim como o filho de Samir o mantém ligado a sua ex-mulher em coma. Todas essas amarras impedem que Marie seja plenamente feliz com seu novo amor, e a faz tentar usar a boa relação de seu ex-marido com sua filha adolescente para solucionar parte desse problema.

Talvez mais do que um ótimo cineasta, Asghar Farhadi chame atenção por ser um exímio roteirista. Com uma narrativa bastante coesa e com personagens complexos e cheios de camadas, tal como somos todos, O Passado é um bom exemplo de filme sobre famílias disfuncionais que não se entrega aos grandes clichês e estereótipos dessa vertente do cinema. A cada momento o espectador é levado a conhecer mais de cada um dos personagens e dos fatos que cercam a relação dessa multifamília, que tem como figura central a mãe, interpretada com muita segurança por Bérénice Bejo, vencedora do prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes 2013 pelo papel.

Mas os louros de sua ótima atuação podem ser divididos tanto com Ali Mosaffa, no papel do sereno ex-marido; quanto com Tahar Rahim (do ótimo O Profeta), seu novo namorado, inseguro pela aproximação dessa figura tão importante do passado de Marie. Não ficam atrás também as crianças, em especial o pequeno Elyes Aguis, filho de Samir, que estranha um pouco a nova casa, mas também começa a criar um laço de aproximação com a chegada de Ahmed.

Vale lembrar a ótima simbologia que Farhadi cria com a casa de Marie passando por uma reforma, ganhando uma nova pintura, a fim de substituir o passado que teve Ahmed por um futuro ao lado de seu novo amor. No entanto, Marie lembra a Ahmed o tempo todo para que tome cuidado com a tinta fresca daquelas paredes. Ou seja, as coisas estão mudando, mas o toque do ex-marido pode influenciar nessas transformações.

Para quem gostou de A Separação e esperava ansioso pelo novo trabalho de Farhadi, O Passado pode atender bem às possíveis expectativas geradas por um dos melhores filmes últimos anos. Ainda mais sabendo que o cineasta é capaz de fazer um longa calcado na mesma temática de seu sucesso anterior sem soar repetitivo. Pelo contrário, lançando mão mais uma vez de ótimos personagens, que enriquecem a complexa história daquela família, sem perder em momento algum a coesão da narrativa.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho