O Poderoso Chefão comemora 40 anos de história

Se você ainda não assistiu ao clássico O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, dê pause (RÁ!) nesse texto agora e corra para ver. São 2h55m que com certeza você não vai perder da sua vida. Pelo contrário, vai se perguntar por que ainda não havia assistido ao filme, que há exatos 40 anos, em 15 de março de 1972, tinha sua première em Nova York.

Pois bem, imagino que se você está nesse parágrafo, já deva ter assistido ao filme que, à parte toda a minha paixão por ele, que é tão grande quanto a minha por Pink Floyd, é um dos mais importantes da história do cinema. Não só porque se tornou um clássico, mas porque marcou uma época e reergueu a indústria de Hollywood, que passava por uma crise financeira enorme e estava ameaçada por uma nova geração de cineastas que simplesmente resolveu desafiar as produtoras e fazer seus próprios filmes, com baixo custo, autorais e que faturavam bem mais do que havia sido investido.

Nessa geração dos cineastas “independentes” dos Estados Unidos do final da década de 60 e início de 70 estava Coppola, entre outros, claro. Um nova-iorquino que queria produzir seus filmes independentes, com sua produtora Zoetrope, e não queria saber das grandes produtoras. Na época, os grandes estúdios não davam a devida atenção aos diretores que, com raras exceções, eram apenas “mais um” nos sets de filmagens e poderiam ser substituídos a qualquer hora, já que os filmes pertenciam às produtoras e não a esses cineastas.

Por isso, Coppola não tinha o menor interesse em dirigir um filme para a Paramount e, pior, baseado em um livro que já era um best-seller na época. Ou seja, ele teria poucas chances de dar sua própria cara ao filme, já que a história já era conhecida e não havia sido escrita por ele. No entanto, por conta de uma dívida que sua produtora tinha com a Warner Bros., de R$ 400 mil dólares, por causa do fracasso que foi o filme de George Lucas, THX 1138, Coppola acabou convencido pelo próprio Lucas a aceitar a oferta da Paramount, pois assim poderia salvar a Zoetrope, que estava quase indo à falência. E assim nasceu o maior e melhor filme já feito neste planeta. Tá, essa é só minha opinião apaixonada e exagerada, você não precisa concordar com isso, óbvio.

A história criada por Mario Puzo mostra a vida de uma família italiana e mafiosa que mora nos Estados Unidos, durante o final da década de 40. Vito Corleone, o chefão, interpretado por Marlon Brando se vê em discordância com outras famílias mafiosas que veem no tráfico de drogas o futuro para seus negócios ilícitos. Conservador e dono de uma moral que pouco se encaixaria em um criminoso, Vito acha que o tráfico de drogas pode atrapalhar os negócios, já que políticos e a polícia, que já estariam comprados pela máfia, não concordariam em fazer vista grossa a esse tipo de negócio.

Pai de cinco filhos, entre eles um adotado, Vito comanda uma das mais poderosas famílias do crime organizado nos Estados Unidos. Seu filho mais velho, Sonny (James Caan), é explosivo e teria poucas chances de um dia se tornar Don, já que seu gênio acabaria trazendo muitos problemas a todos. Fredo, o filho do meio, apesar de saber dos negócios nos quais a família está envolvida, é um covarde medroso, e também não poderia assumir um dia os negócios. Connie (Talia Shire), por ser mulher, não tinha o menor espaço naquela sociedade machista da época.

Sobram apenas Tom Hagen (Robert Duvall), o filho adotivo que não tem ascendência italiana e, portanto, não poderia chefiar a máfia, servindo “apenas” como conselheiro desta, e Michael Corleone (Al Pacino), o filho mais novo de Vito, que nunca havia se envolvido nos negócios da organização, em parte por desejo do pai, que queria que ele seguisse carreira no exército, onde chegou a lutar na 2ª Guerra, e depois se tornasse político, e porque ele próprio se negava a ser parte integrante de uma organização criminosa daquele porte. No entanto, as coisas mudam e é sobre Michael, que a história se desenvolve.

Por não aceitar se envolver com o narcotráfico, Vito sofre um atentado planejado por outra família que quase tira sua vida. Por conta disso, Michael se vê obrigado a fazer parte de um plano de retaliação, no qual acaba matando um dos gângsteres que pretende negociar drogas entre as famílias e pode ter sido o responsável pelo atentado que sofreu seu pai.

Até então, Michael, o jovem veterano de guerra, namorado da bela Kay Adams (Diane Keaton), se negava veementemente a fazer parte daquele grupo, como ele mesmo explica para Kay durante a festa de casamento de sua irmã Connie, que abre brilhantemente o filme. Em todos os momentos, Michael tenta omitir de Kay os negócios da família Corleone, mas, deixa transparecer em alguns momentos, quando questionado por ela, que os Corleone seguem um estilo de vida do qual ele não compartilha, se envolvendo em eventos de origem criminosa.

O Poderoso Chefão é um filme tão bem escrito que, durante sua primeira meia hora, que mostra o casamento de Connie, Coppola e Puzo conseguem apresentar todos os principais personagens, as características de cada um deles, o que cada um representa naquela família mafiosa e qual a importância e o respeito que o próprio Don tem em relação à sociedade na qual está inserida.

Segundo as tradições da máfia (que não sei se são assim na vida real ou apenas no filme), o Don não pode negar nenhum favor pedido no dia do casamento de sua filha e, quase sempre, esses pedidos envolvem alguma atividade ilícita, como é demonstrado já na primeira cena do filme, quando o agente funerário Bonasera vai ao Don para pedir que ele ordene a morte dos homens que violentaram sua filha. Esse primeiro diálogo é genial e mostra o poder (tanto como chefe da máfia quanto o de persuasão) de Don Vito.

Bonasera diz que procurou a polícia e que ela prendeu os homens que violentaram sua filha, mas no mesmo dia os soltaram. Fato que para ele (assim como para qualquer pessoa) era inaceitável. Don Vito, então, diz para Bonasera que seria injusto matar esses homens, já que sua filha não foi morta, e que o pedido de Bonasera também era um desrespeito ao próprio Don, que nunca havia sido procurado antes por ele, que evitava tê-lo como amigo para não acabar se envolvendo em maiores problemas. Mas, como o próprio Don era uma pessoa extremamente generosa, faria o favor de espancar esses homens em troca de um favor que Bonasera teria que fazê-lo no futuro, em um dia que poderia não chegar, mas se chegasse, jamais poderia ser recusado.


Na mesma cena, vemos o personagem de Robert Duvall, Tom Hagen, advogado e conselheiro da família. Braço direito do chefe, Tom é calmo e centrado, age mais pela razão do que pela emoção e é a pessoa responsável por intermediar toda e qualquer situação que poderia acabar de forma violenta. Aliás, o personagem de Duvall é exatamente o oposto do filho mais velho, Sonny, que, prestes a explodir por qualquer coisa, sempre prefere resolver os negócios da família com violência.

Quando Don Vito sofre o atentado, Sonny é o primeiro a defender uma retaliação dura e imediata, a fim de tentar evitar que as outras famílias continuem atacando os Corleone. Michael, até então isolado dos negócios da família, concorda e decide ele mesmo se vingar. Após esta retaliação, Michael é enviado à Sicília para ficar escondido e protegido do caos que se instauraria, causando a famosa “Guerra entre as Famílias”.

Depois desse período exílio, no qual Michael se casou com uma jovem que acabou morta por engano em atentado que deveria ter como vítima ele próprio, ele volta para os Estados Unidos para liderar os negócios da família, que acabara de perder Sonny, em uma emboscada, e que ficou sem um chefe, já que Don Vito ainda se recuperava do atentado que sofrera.

Assumindo de vez os negócios da família, Michael, brilhantemente interpretado por Al Pacino, se mostra um Don muito mais violento e implacável que seu pai, que gozava de um carisma que não foi herdado por nenhum de seus filhos. Michael lidera, então, um plano para acabar de vez com a guerra entre as cinco principais famílias mafiosas, ordena a morte de todos os chefões e de seus detratores.

Em mais uma brilhante cena do filme, que intercala todos os assassinatos com o batismo de seu sobrinho, no qual Michael se torna literalmente um padrinho, principalmente fazendo referência ao modo como os Dons são tratados por seus “súditos”, o personagem de Michael se finca de vez entre os mafiosos, apagando qualquer relutância que apresentava em seu passado.

A cereja do bolo fica por conta da cena final, onde depois de ter ordenado a morte do próprio cunhado, que teria traído a família entregando o Sonny para seus inimigos, Michael nega para sua (agora) esposa Kay Corleone que tenha sido o responsável pela morte do cunhado, mostrando, definitivamente, que Michael é capaz de tudo, até mentir para a própria esposa, para manter os negócios da família funcionando sem maiores problemas. Ao contrário de Vito, que sempre preferiu a omissão a ter que “trair” a própria família em uma mentira.

Nesta cena, após mentir para Kay, Michael e a esposa se encontram em cômodos separados da casa, em oposição. Integrantes da máfia entram no escritório e o chamam pela primeira vez de Don Corleone, beijando a mão do padrinho, enquanto outro homem fecha a porta, isolando Kay dos negócios da família.


O Poderoso Chefão, além de todas as suas qualidades técnicas, principalmente direção, fotografia, figurino, montagem e trilha, mostra o quanto a interpretação pode fazer com que um filme ganhe proporções ainda maiores.

Não apenas pelo fato de ter em seu elenco o já consagrado Marlon Brando, mas nomes até então pouco conhecidos, como Al Pacino, Robert Duvall, James Caan, Diane Keaton e John Cazale (Fredo). Cada um desses atores, sob a batuta de Coppola, claro, parece realmente ter vivido de fato esses personagens e demonstraram uma qualidade de interpretação poucas vezes vista em um único filme.

Cada um desses personagens tem suas próprias características e todos se desenvolvem em papeis tridimensionais, que vão mudando de acordo com o que acontece na trama e o maior exemplo é mesmo o de Al Pacino como Michael Corleone, que passa de herói de guerra a chefe da máfia; de paladino da verdade a manipulador inescrupuloso.

Ao contrário do que muita gente pensa, não é Vito o verdadeiro protagonista do filme, mas Michael. É sobre a mudança de comportamento dele que toda a história se desenrola, mostrando a transformação de um homem de caráter a um dos maiores criminosos da história do cinema.

Vito, que aqui é vivido por Marlon Brando, só ganha mais espaço no segundo longa da trilogia, quando Robert De Niro assume o personagem em sua juventude, mostrando como ele se tornou um mafioso, ao mesmo tempo que o filme também continua a desenvolver o personagem de Michael, mas isso é assunto para um outro texto.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho