Crítica: Os Oito Odiados e o cinema sobre cinema de Quentin Tarantino

Há algo em Tarantino que não se vê muito em outros cineastas: a paixão pelo próprio cinema. Não que outros não o amem, mas pouquíssimos explicitam esse sentimento dentro dos próprios filmes como ele. É quase uma relação sexual com a sétima arte. Hitchcock, Truffaut, Scorsese… Tarantino. Engana-se quem acha que o cineasta faça filmes sobre vingança, sobre as tensas relações de anti-heróis que desconfiam uns dos outros ou até mesmo sobre a espetacularização da violência. Claro, tudo isso está em seus filmes. Mas eles são sobre cinema. Tarantino faz filmes sobre cinema. E, para tanto, usa como gatilho histórias que apresentem as características citadas acima, abrilhantadas por roteiros verborrágicos, narrativas com estruturas não-lineares, trilhas sonoras que mesclam o moderno e o clássico, dezenas de referências de outros filmes e cineastas. Mas tudo ressignificado para atender à história que deseja contar no momento. Pós-moderno até o último fio de cabelo.

Tudo isso pode ser visto em seu oitavo longa, Os Oito Odiados, um western com toques de thriller de detetive, com uma aura meio “Agatha Christie e Sergio Leone entram em um bar”, ou numa cabana. Do mestre dos westerns spaghetti, ele herda toda a ambientação, a psicologia de seus personagens, os movimentos de câmera e dos atores em cena e, obviamente, seu principal compositor: Ennio Morricone; da Rainha do Crime, a construção de uma narrativa que, pouco a pouco, vai se desenhando para um clímax que nos faz temer que não sobre ninguém, como diz um dos inúmeros títulos que O Caso dos Dez Negrinhos, da autora, recebeu por aqui. (O Caso dos Dez Negrinhos, O Caso dos Dez Indiozinhos, E Não Sobrou Nenhum, O Vingador Invisível).

No longa, o caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) leva em sua diligência a assassina Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), que será enforcada ao chegarem (se chegarem) à cidade de Red Rock. No meio do caminho, topam com outro mercenário, Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), em uma introdução à la Sergio Leone, que também precisa levar três de suas presas, no caso mortas, à mesma cidade, além do futuro xerife de Red Rock, Chris Mannix (Walton Goggins). O problema é que eles precisarão fazer uma parada em uma estalagem no meio do caminho para esperar a nevasca que os acompanha passar. Nela, o grupo, que também conta com o carroceiro O.B. Jackson (James Parks), encontrará mais quatro figuras importantes para a história: o mexicano Bob (Demián Bichir), o carrasco britânico Oswaldo Mobray (Tim Roth), que lembra muito o coronel Hans Landa, de Bastardos Inglórios, o misterioso Joe Cage (Michael Madsen) e o ex-general dos Estados Confederados Sandy Smithers (Bruce Dern).

É durante essa nevasca, fechados nessa cabana taciturna, que a trama se desenvolve, já que os homens estão lá justamente para tentar resgatar Daisy das mãos do “Enforcador”, alcunha de John Ruth. Em meio a isso, toda a tensão é ampliada por conta do período em que a história se passa, logo após a Guerra de Secessão, que aboliu a escravidão nos EUA após a derrota dos Estados do Sul, escravistas, pelos Estados do Norte, a União. E a questão do racismo não é a única que permeia o longa de Tarantino, já que também fica explícita a misoginia sofrida por Daisy e a xenofobia contra o mexicano Bob. Nesse ponto, o longa funciona como uma alegoria para aquele período da história dos EUA, que convenhamos, não é muito diferente do período atual. Mas se em vários momentos Tarantino esbanja pretensão, em questões políticas (apesar de seus três últimos longas arranharem alguns temas), o cineasta é mais comedido e não se arrisca a transformar seus filmes em panfletos desse ou daquele assunto.

Tarantino está mais interessado em cinema. E é nisso que ele brilha como poucos. Resgatando uma razão de aspecto praticamente abandonada desde os anos 1960, a Ultra Panavision 70, o cineasta rodou Os Oito Odiados em película de 70mm com lentes anamórficas, que alcançam uma proporção de até 2.76:1. (Para entender melhor essas questões técnicas, recomendo esse ótimo artigo do Thiago Rabelo). Muito utilizada nos anos 1950 e 1960 para a filmagem de grandes épicos, essa técnica acaba subvertida por Tarantino aqui, já que praticamente o filme todo, com exceção de umas poucas cenas externas, ele se passa em um ambiente relativamente pequeno. Mas esse é, na verdade, o grande trunfo do cineasta, e obviamente de seu fotógrafo Robert Richardson, já que a grande proporção de imagem permite que eles transformem aquela cabana em algo muito maior do que ela é, ao mesmo tempo em que o design de produção precisa ocupar todos os espaços que aparecem em campo e garantir que, mesmo com os grandes planos lá dentro, ela continuará exercendo uma atmosfera claustrofóbica.

Com toda esse trabalho de imagem, fica fácil (para quem entende do riscado e conta com grandes parceiros) cuidar do restante, obviamente, não menos importante. O roteiro traz a assinatura já reconhecida do cineasta, com diálogos afiados e dando-se o luxo de realizar um falso deus ex-machina e umas exposições aqui e ali, em nome das ótimas interpretações de seu texto pelo elenco. Aliás, como também é costume de Tarantino, em Os Oito Odiados ele aproveita para resgatar Jennifer Jason Leigh do limbo e faz dela, ao lado do sempre ótimo Samuel L. Jackson, o grande destaque entre as atuações. Ela simplesmente rouba todas as cenas em que aparece e se mostra uma psicótica quase masoquista, que em alguns momentos chega a lembrar um pouco a personagem de Amanda Plummer em Pulp Fiction.

E se em Django Livre a primeira parceria de Tarantino com o montador Fred Raskin, que assumiu o lugar da fiel escudeira do diretor, Sally Menke, morta em 2010, deixou a impressão de que os dois ainda estavam se entendo e de que o trabalho precisava ser mais bem polido, em Os Oito Odiados parece que a dupla se encontrou de vez, em uma montagem fluida, que casa perfeitamente com a narrativa entrecortada por capítulos e que vez ou outra recorre a alguns flashbacks para apresentar novos detalhes da trama. E como não podia faltar, a cereja do bolo é justamente a trilha sonora assinada pelo mestre Ennio Morricone, que intercala peças épicas, que parecem saídas de seus trabalhos ao lado de Sergio Leone, com temas mais intimistas, que acentuam a crescente tensão da trama.

Pode-se falar muita coisa sobre Quentin Tarantino: que é pretensioso, autoindulgente, falastrão, que abusa das referências a outros filmes e cineastas… mas não se pode dizer que ele não saiba fazer cinema. E sabe como poucos.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho