Crítica: Para Sempre Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland

O que faz da nossa vida ser o que é: a memória daquilo que vivemos e que formou os indivíduos que nos tornamos? E se de repente essa memória começar a se desintegrar, a se perder em algum lugar que não pode mais ser acessado em nosso cérebro: morremos? Ou será que aquilo a que chamamos viver é tão somente o instante-agora que experimentamos? Nesse caso, corremos o risco de permanecer para sempre em um loop de falsas primeiras experiências?

Esses são apenas alguns dos questionamentos que me ocorreram após assistir a Para Sempre Alice, dirigido por Richard Glatzer e Wash Westmoreland, e estrelado por Julianne Moore. Professora de linguística na Universidade de Columbia, Alice Howland é reconhecida, principalmente, por seu renomado estudo sobre a capacidade de aprendizado da língua em crianças entre 18 meses e 2 anos, especificamente “sobre a relação entre memória e computação, que é a base primordial da comunicação”, em suas próprias palavras.

Ironicamente, logo descobrimos que Alice sofre de um tipo raro de Alzheimer, de origem genética, que se manifesta numa idade menor que os demais. Ao longo de sua história, acompanhamos o desenvolvimento de sua doença, que também apresenta sintomas de maneira mais acelerada, e de como ela vai interferir no seu dia a dia e no de sua família.

Baseado no livro homônimo da neurocientista Lisa Genova, um dos méritos de Para Sempre Alice é conseguir dosar o drama de sua protagonista e a questão científica que envolve sua doença. A trama não cai para o sentimentalismo nem se entrega ao didatismo, que poderia acontecer dada a complexidade do tema. Méritos do roteiro assinado pela dupla de diretores, e possivelmente do livro de Lisa Genova (mas não o li para afirmar com certeza). Com uma narrativa simples, ele apresenta a doença e seus sintomas de maneira bastante fluida com o desenrolar da trama e o desenvolvimento de sua protagonista.

Mas o verdadeiro destaque é Julianne Moore que, com seu talento e experiência, não se deixa seduzir por uma atuação exagerada. Pelo contrário, a riqueza de sua composição está justamente na simplicidade e sutileza com que encarna sua personagem. Ao seu lado, os não menos competentes Alec Baldwin e Kristen Stewart vivem o marido e uma das filhas. Alice tem ainda mais dois filhos, interpretados por Kate Bosworth e Hunter Parrish, mas que aparecem com menor destaque. Os momentos em que Julianne divide as cenas com Baldwin e Kristen ajudam a entender como funciona o processo de aprendizado da família em relação àquela doença, o impacto que ela causa naquele universo e como cada um lida com o crescimento exponencial dos sintomas.

O Mal de Alzheimer parece ser uma doença que traz consigo uma dose extra de tristeza, reforçada pelo estranhamento que todos têm com a quase inocente perda de memória, que pode fazer com que uma pessoa se perca dentro de sua própria casa, por exemplo, ou repita hábitos triviais, como se apresentar mais de uma vez a alguém em questão de minutos. É quase um lento caminhar a um estado semiprimitivo de aprendizado, como aquele período entre os 18 meses e 2 anos a que se refere o estudo de Alice, só que invertido: a perda de memória faz com que se desaprenda uma série de coisas.

Aos poucos, os registros de toda uma existência vão se apagando, como anotações feitas a lápis. E tudo aquilo que se tem é exatamente o instante-agora ao qual está submetido. Sem a chance de recorrer a um histórico que lhe permita tomar a decisão x ou y, ou dar andamento a um processo já iniciado, ao invés de recomeçá-lo e recomeçá-lo e recomeçá-lo ad aeternum. Retorno aqui às questões que abrem o texto: viver é recorrer à memória para que nos reconheçamos como somos e possamos seguir em frente? Ou é experimentar o momento? E se a memória se vai, morremos? E se não morrermos, mas ficarmos presos em um loop de primeiras experiências?

Em determinado momento, Alice e sua filha Lydia conversam sobre um pingente de borboleta que a primeira ganhou de sua mãe. Ela diz que aprendeu na escola que borboletas vivem apenas um mês, mas que sua mãe lhe ensinou que elas têm uma vida linda. Não acho que isso responda às questões acima, mas trazem uma nova perspectiva sobre a questão da permanência, da persistência da memória. Somemos a isso um trecho da peça Angels in America, de Tony Kushner, que Lydia lê para Alice: “nada se perde para sempre”. Em outro momento, anteriormente, Alice palestra em um seminário sobre o Mal de Alzheimer. Segue abaixo um trecho:

A poetisa Elizabeth Bishop escreveu: ‘a arte de perder não é nenhum mistério. Tantas coisas contêm em si o acidente de perdê-las, que perdê-las não é um desastre’. Não sou uma poetisa. Sou uma pessoa vivendo no estágio inicial de Alzheimer. E, assim sendo, estou aprendendo a arte de perder todos os dias. Perdendo meus modos, perdendo objetos, perdendo sono e, acima de tudo, perdendo memórias.

Toda a minha vida eu acumulei lembranças. Elas se tornaram meus bens mais preciosos: a noite em que conheci meu marido; a primeira vez que segurei meu livro em minhas mãos; ter filhos; fazer amigos; viajar pelo mundo. Tudo o que acumulei na vida, tudo o que trabalhei tanto para conquistar. Agora tudo isso está sendo levado embora.

(…)

Quem nos leva a sério quando estamos tão diferentes do que éramos? Nosso comportamento estranho e fala confusa mudam a percepção que os outros têm de nós e a nossa percepção de nós mesmos. Tornamo-nos ridículos. Incapazes. Cômicos. Mas isso não é quem somos. Isso é a nossa doença.

(…)

Fui dura comigo mesma por não ser capaz de me lembrar das coisas. Mas ainda tenho momentos de pura felicidade. E, por favor, não pensem que estou sofrendo. Não estou sofrendo. Estou lutando. Lutando para fazer parte das coisas, para continuar conectada a quem fui um dia.

“Então viva o momento”, é o que digo para mim mesma. É tudo o que posso fazer. Viver o momento. E não me culpar tanto por dominar a arte de perder. Uma coisa que vou tentar guardar é a memória de falar aqui hoje. Irá embora. Sei que irá. Talvez possa desaparecer amanhã, mas significa muito estar falando aqui hoje. Como meu antigo eu, ambicioso, que era tão fascinado em comunicação.

Obrigada por essa oportunidade. Significa muito pra mim.

Em algum momento, entre a arte de perder e a persistência daquilo que não se vai para sempre, reside a beleza da nossa vida. Registrar essa existência em uma série de sinapses ao longo dos anos não parece ser o essencial para que nos enxerguemos parte de algo, já que a própria Alice diz que luta para continuar conectada a quem foi um dia. E, mesmo que não consiga, isso não se perde por completo, ainda que exista apenas por um breve momento. Ou não seria vida aquilo a que chamamos a existência de uma borboleta?

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho