Crítica: Uma Viagem Extraordinária, de Jean-Pierre Jeunet

Dirigido por Jean-Pierre Jeunet (O Fabuloso Destino de Amélie Poulain), Uma Viagem Extraordinária traz como protagonista o pequeno T.S. Spivet, um pequeno prodígio de apenas 10 anos que resolve um grande desafio matemático de séculos e inventa uma máquina de movimento perpétuo. Por sua invenção, ele é laureado com um prêmio por um instituto de ciências que fica em Washington, que é um estado quase vizinho ao qual ele mora, mas que o fará empreender em uma grande jornada para chegar até lá.

A grande questão é que o garoto se arrisca a ir sozinho em sua viagem, pois vive em uma família que: 1) não o compreende da forma como ele é, um garoto que se dedica a estudar e a praticar seus talentos científicos; 2) recentemente teve uma grande perda, quando seu irmão gêmeo acabou morto em um acidente envolvendo uma arma de fogo no celeiro da fazenda onde moram. Esse fato fez com que todos passassem a agir de maneira mais individualista, sem querer tocar no assunto da morte da criança e compartilhar sua dor.

Seu pai, um caubói de espírito, dedica-se totalmente a cuidar da fazenda e das cabras que cria. Sua mãe é uma cientista que pesquisa a fundo a vida dos insetos, mas que não dá muita importância para a veia estudiosa do filho. E sua irmã mais velha, já adolescente, vive o sonho de se tornar uma atriz famosa e poder ir embora do local onde mora.

Todos vivem apenas para suas próprias vidas particulares e Spivet sente falta de uma ligação maior com sua família. Por conta disso, ele decide que irá receber o prêmio sozinho, em uma jornada particular, já que se sente culpado pela morte do irmão, mas nunca conseguiu expressar essa angústia por conta da distância que seus familiares mantiveram após a tragédia.

A leveza com que Jeunet trata a pesada história de Spivet é, talvez, o grande destaque do filme. De maneira lúdica, que chega a lembrar um pouco Moonrise Kingdom, de Wes Anderson, e Onde Vivem os Monstros, de Spike Jonze, ele vai conduzindo o garoto por sua jornada cheia de pequenas aventuras, mas que em nenhum momento coloca em riscos reais a sua vida. A fotografia, acentuada pelas cores fortes e por ângulos de câmera que nos levam àquele universo de Amélie Poulain, ressaltam o tom infantil e quase cartunesco da história.

Vale destacar as atuações do estreante em longas-metragens Kyle Catlett, que apesar de muito jovem entrega muito sentimentalismo em suas cenas, e da veterana Helena Bonham Carter, que dessa vez pode ser vista em um papel mais “normal” para os seus padrões. Ela vive a mãe de Spivet, que parece estar em choque permanente, o que condiz exatamente com o estado de sua personagem, que ainda não sabe direito como lidar com a recente perda de um filho tão jovem.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho