A volta por cima de Stallone e Rocky Balboa

Em 1977, um filme entrava para a história do cinema não apenas por levar a estatueta do Oscar de melhor de 1976, mas por fazer isso disputando com nomes como Rede de Intrigas, Todos os Homens do Presidente e Taxi Driver, que também se tornariam clássicos absolutos e, na opinião de muita gente, melhores que o próprio vencedor. Estamos falando de Rocky, que no Brasil ganhou o subtítulo “Um Lutador”.

Embora a decisão da Academia tenha sido injusta, nos olhos de hoje, é preciso lembrar que os Estados Unidos passavam por uma fase difícil, com o orgulho americano ferido por conta do recente caso Watergate, que inclusive era o tema principal de um dos longas indicados a Melhor Filme. Com exceção do vencedor Rocky, e do menor Esta Terra é Minha, de Hal Ashby, os outros longas indicados eram de certa forma pessimistas, sombrios e niilistas. E, convenhamos, eles precisavam erguer a moral ferida com um filme otimista. E aí veio Rocky e o resto é história.

A questão é que, tendo sido o sucesso que foi, e por ter alavancado a carreira de Sylvester Stallone, não foi difícil convencê-lo a continuar a história do boxeador, que deixou o lado dramático do primeiro filme para se tornar apenas mais um filme de ação, com testosterona escorrendo pelos poros do ator, que agora, além do roteiro, assumia a direção até o quarto longa. Assim se seguiram mais quatro sequências, até Rocky V, em 1990, no qual ele dava um final patético ao ótimo personagem que criara, no filme dirigido por John G. Avildsen, o mesmo do primeiro filme.

Mas em 2006, insatisfeito com o resultado do quinto longa e em baixa em Hollywood, vale lembrar, Stallone decide dar uma segunda chance para Rocky (e para si próprio) ao escrever e dirigir Rocky Balboa. Uma espécie de revisão de sua própria carreira, uma cinematerapia, digamos assim. Não chega próximo do primeiro em qualidade, mas talvez seja o melhor entre todas as sequências. E dá um final honroso a um personagem com altos e baixos, tal como seu criador.

O grande mérito de Rocky Balboa é, na verdade, conseguir resgatar aquela aura dramática do primeiro filme, desta vez marcada por sua relação com o filho já adulto e com a ausência da esposa falecida. O drama de um ex-capanga de agiota que se tornou lenda do boxe e depois virou piada é o mesmo de um jovem ator que teve de vender seu cachorro por 50 dólares porque não tinha dinheiro para alimentá-lo, que morou no rua no início da carreira e depois se tornou astro de filmes de ação e acabou voltando ao ostracismo, se rendendo a filmes menores e de qualidade duvidosa.

Toda essa história acima foi para dar um contexto para a cena que escolhemos destacar hoje. A vida bateu muito na cara Rocky e de Stallone e os derrubou algumas vezes. “Mas não se trata do quão forte pode bater, mas de quão forte pode ser atingido e continuar seguindo em frente. É assim que se faz a vitória”, dizem eles, Rocky e Stallone. E foi assim que Stallone escreveu essa cena incrível de Rocky Balboa, o filme que o trouxe de volta ao status de grande estrela, reinventando a própria carreira, ainda que seja revisitando seus tempos áureos, mas tendo consciência de que ele precisava disso. E o personagem também.

Curiosidade: Stallone chegou a receber uma oferta de 350 mil pelo roteiro do primeiro filme, mas recusou porque não queriam que ele atuasse. Ele bateu o pé até que lhe deixassem atuar, mas lhe pagariam apenas 35 mil. A primeira coisa que fez com o dinheiro foi comprar o cachorro que tinha vendido por 50 dólares. A questão é que o cara para quem ele vendeu não queria devolver o animal por valor nenhum e, entre as inúmeras ofertas de Stallone, ele acabou aceitando vendê-lo de pelo valor de 15 mil. E Butkus, o cão, entrou no filme como cachorro de Rocky.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho