MostraSP: comentários sobre alguns dos filmes vistos #2

“Vovó Está Dançando na Mesa”, de Hanna Sköld

Eini é uma garota de 13 anos que vive em uma casa na floresta, junto de seu pai, um homem controlador e violento. A justificativa desse isolamento é de que o mundo exterior é muito perigoso, assim como ela. Mas a realidade é bem diferente, já que seu pai tem um temperamento explosivo que sempre a faz alvo de sua raiva. Para ter uma vida suportável nesse ambiente, a garota apela para a imaginação e para as origens da própria família, especialmente as histórias de sua avó. Financiado por uma campanha de crowdfunding, “Vovó Está Dançando na Mesa” é o segundo longa da cineasta Hanna Sköld, que demonstra muita maturidade, especialmente pela temática, e inventividade, já que o universo paralelo de Eini é todo filmado em stop-motion. Esse tom quase lúdico da animação confronta a atmosfera violenta daquele ambiente opressor, que deixa o espectador com a sensação de que algo ruim pode acontecer a qualquer momento. Sentimento que é realçado pela fotografia e direção de arte, que na maior parte do tempo são frias, com exceção de alguns figurinos da menina, que chega a usar roupas com cores mais fortes, como azul e vermelho, que apontam uma tentativa de se destacar daquele lugar e ter uma vida mais alegre fora dali, talvez.

“Flocking”, de Beata Gårdeler

Vivemos em uma cultura machista onde o estupro não é tratado da maneira como deveria e que, muitas vezes culpabiliza as vítimas, ao invés dos estupradores. Em tempos de redes sociais, onde a comunicação é cada vez mais rápida e mais replicada, essa situação se agrava. Em uma Suécia reconhecidamente progressista, isso também não é diferente. O longa conta a história de uma adolescente que diz ter sido estuprada por um colega de escola, mas que tem seu depoimento desacreditado por todos os amigos e moradores de sua cidade. Pior, ela passa a ser humilhada publicamente com frequência, sendo chamada de piranha e vagabunda por todos, enquanto seu estuprador é defendido por essas pessoas. Infelizmente, isso é mais comum do que parece e o longa, mais real do que gostaríamos. Fatime Azemi, que vive Jennifer, tem uma atuação minimalista e impecável. Ela sofre em silêncio durante a maior parte do tempo e vemos (quando conseguimos enxergá-lo) em seus olhos a profunda tristeza e frustração diante daquela injustiça. E isso se agrava quando o assunto começa a afetar diretamente sua família, que também é maltratada por todos na cidade. Certamente, “Flocking” é um daqueles filmes que justificam a existência da Mostra de SP, pois dificilmente teríamos outra chance de vê-lo por aqui.

“Mistress America”, de Noah Baumbach

Noah Baumbach segue o caminho das pedras hipster e faz mais um filme bonitinho e engraçadinho sobre personagens brancos e de classe média em Nova York. E veja bem, isso não chega a ser um demérito, porque o filme é bom, mas faz dele mais um representante desse filão indie descoladex que agrada especialmente os millenials, que se enxergam (bem) representados em seus personagens. Aqui, Tracy (Lola Kirke) é uma moça que se muda para Nova York para entrar na faculdade e estudar literatura e vira amiga de Brooke (Greta Gerwig), anos mais velha e sua futura meio-irmã, já que sua mãe deve se casar com o pai dela. Tracy quer entrar em um grupo de estudos conceituado na universidade e admira Brooke por ela ser descolada, cheia de amigos e parecer uma pessoa de sucesso. Ao longo do filme vemos um pouco da relação das duas e da busca de Brooke por dinheiro para conseguir montar um restaurante. Tudo isso com muito bom humor, como nos outros filmes de Baumbach, e com atuações muito boas de Greta Gerwig e Lola Kirke. Certamente, agradará a fãs de “Frances Ha”. A grande questão é: quanto tempo ainda dura esse tipo de filme, com as mesmas histórias, mesmos personagens, mesmos questionamentos existenciais?

“Travessia”, de João Gabriel

O longa destaca a relação entre pai e filho vivida por Chico Diaz e Caio Castro. O pai trabalha em um escritório e tem uma relação conturbada com o filho, agravada pela morte da esposa, que lhes deixou uma herança que causa um grande conflito entre os dois. O rapaz tenta construir uma vida própria e, para isso, começa a traficar ecstasy em baladas. Em meio a isso, seu pai acaba atropelando uma criança de rua e se vê em uma situação que também pode lhe render um processo judicial e, provavelmente, sua prisão, já que dirigia embriagado. O filme é um estudo de personagens onde a figura dos dois é construída de modo a deixar os personagens muito próximos de pessoas reais, sem soarem maniqueístas, totalmente boas ou totalmente ruins. Pelo contrário, ambos têm qualidades e defeitos e incorrem em atos ética e moralmente questionáveis, que apenas engrandecem a obra. Destaque para as atuações de Caio Castro e, especialmente, Chico Diaz, que consegue transmitir muita emoção apenas com olhares ou com a intonação da voz.

“Rashomon”, de Akira Kurosawa

Obra-prima de Kurosawa restaurada pela The Film Foundation. O longa começa com três homens se abrigando de uma tempestade sob os portões de Rashomon. Um deles começa a contar uma história cujo desfecho ele não consegue compreender. Ele diz ter encontrado um homem morto em uma floresta e que, após investigações, foi chamado para depor no julgamento do suspeito. Nesse julgamento, ouvimos a história contada por diferentes personagens, cada um com uma versão: a do lenhador que encontrou o corpo, a do suspeito de tê-lo matado, a da mulher da vítima, que foi estuprada pelo réu, e a do espírito do falecido, que se apossa do corpo de uma médium para contar sua própria versão dos fatos. Rashomon tem um dos roteiros mais criativos e memoráveis da história do cinema, lembrando que o longa é de 1950, e que conta com uma estrutura pouco comum até então, de não apresentar os fatos em ordem cronológica, além dos vários pontos de vista sobre os mesmos acontecimentos. Tudo isso, mais de uma década antes de Quentin Tarantino sonhar em nascer. Então, se alguém aí ainda acredita que ele inventou essa estrutura não linear de roteiro, já está mais do que na hora de parar, né?

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho