MostraSP: comentários sobre alguns dos filmes vistos #3

“A Terra e a Sombra”, de César Augusto Acevedo

Vencedor da Câmera de Ouro no Festival de Cannes desse ano, o longa de César Augusto Acevedo mostra o retorno de um avô à sua antiga casa, depois de 17 anos separado da família, para ajudar a cuidar do filho que sofre com uma grave doença, intensificada pela poeira e cinzas das queimadas de um canavial que circunda sua residência. Em meio a esse cenário desolado e carregado de incertezas e injustiças, ele tenta se reinserir naquela família e ajudar a salvá-la desse período de dificuldades, que obriga sua ex-esposa e a nora a trabalharem cortando cana para sustentar a família. Acevedo justifica o prêmio que recebeu em Cannes com movimentos de câmera elegantes, com lentos travelings que realçam seus enquadramentos e os movimentos dos atores em cena. Seu trabalho nos deixa curioso para acompanharmos mais de perto sua futura carreira, pois, se em seu longa de estreia, já consegue produzir essas belas imagens em um cenário que em nenhum momento remete ao belo, mas apenas a dor e sufocamento, imagina o que será capaz de realizar com mais experiência.

“Desde Allá”, de Lorenzo Vigas

Em Caracas, na Venezuela, um homem de meia-idade põe em prática suas fantasias ao pagar para observar rapazes nus em sua casa. Ao conhecer um jovem de uma gangue, eles iniciam uma relação marcada pela violência do rapaz, que aos poucos, atraído pelo dinheiro, se sente cada vez mais ligado a seu aliciador. Em meio a isso, um segredo não revelado sobre o passado desse homem fará com que essa relação chegue a um extremo sem volta. Vencedor do Leão de Ouro, no Festival de Veneza 2015, Desde Allá é marcado pela crueza urbana da capital venezuelana. Característica que acaba refletida nas interpretações de Alfredo Castro, que vive um homem frio e quase insensível, e do estreante Luis Silva, cujo personagem age sempre movido por suas emoções, instintivamente. Mas, ao mesmo tempo em que esse embate entre razão e emoção colabora para a química entre os dois atores/personagens, por vezes, parece servir de muleta para fazer a narrativa andar, vide o próprio clímax do filme e o grande acontecimento que o precede, que parecem uma sucessão de conveniências para forçar um final excessivamente dramático.

“Ixcanul”, de Jayro Bustamante

Em um vilarejo nas montanhas da Guatemala, próximo a um vulcão, vive Maria, uma jovem de 17 anos fadada a um casamento arranjado e com o sonho de conhecer a cidade e a vida moderna. Como é comum nas culturas onde as famílias combinam casamentos para os filhos, Maria não é apaixonada por seu prometido. Pelo contrário, ela já flerta com outro rapaz do vilarejo, de quem engravida acidentalmente. Agora, ela começa uma corrida contra o tempo para tentar não arruinar o acordo matrimonial ou conseguir fugir de vez dele e do local onde mora. Vencedor do Alfred Bauer no Festival de Berlim, prêmio para o filme que “abre novas perspectivas para o cinema”, e selecionado pela Guatemala para representar o país no Oscar 2016, Ixcanul nos apresenta um pouco dos costumes guatemaltecos e das relações familiares, permeados por tradições seculares e por um misticismo característico daquela região vulcânica. Essas crendices populares, inclusive, afetam diretamente a história da protagonista. Jovem e dedicada à família, mas com desejo de ser independente, Maria precisa lidar com mais responsabilidades do que uma garota de sua idade gostaria: a gravidez, o casamento arranjado, o amor impossível, a independência distante, a saúde, as perdas…

“Alias María”, de José Luis Rugeles

María é uma garota de apenas 13 anos, mas que já faz parte de uma milícia paramilitar colombiana. Esses grupos recrutam muitos jovens e os condenam a uma vida cruel e violenta até mesmo para adultos. A Colômbia vive em constante tensão por conta dessas guerrilhas, que comandam áreas onde nem mesmo o governo tem mais acesso. María tem uma missão arriscada: ajudar a levar o filho recém-nascido do chefe do grupo para um local mais seguro. Em meio a isso, ela descobre que está grávida de um dos integrantes da milícia e agora tenta fugir para não ser obrigada a abortar, como acontece com as mulheres que engravidam nela. O filme de José Luis Rugeles retrata essa triste realidade colombiana, onde as perspectivas do futuro dessa jovem são tão incertas quanto a de qualquer outro civil que acaba vítima desses grupos paramilitares. Em alguns momentos, vemos a relação de Maria com “o mundo real”, o civil, e fica explícito seu desejo de ser apenas mais uma criança comum, como qualquer outra. Mas isso, ela nunca será. Ou permanece na guerrilha ou, se conseguir escapar, deve ser tornar uma mãe precoce. E perder a infância seria a menor das derrotas, já que as chances de perder a vida como um todo são enormes.

“Chronic”, de Michel Franco

Em Chronic, Tim Roth interpreta um enfermeiro especializado em doentes em estados terminais. Ele dedica sua vida a tentar minimizar o sofrimento dessas pessoas, com quem, inevitavelmente, cria laços e oferece um conforto que, muitas vezes, nem a própria família consegue dar. Essa cumplicidade serve como válvula de escape para que ele próprio trate das dores de sua vida particular, já que perdeu um filho em circunstâncias análogas às que vivem alguns de seus pacientes. Sua morte foi o gatilho para a separação da ex-esposa e da filha mais nova, de quem ele, agora, tenta se reaproximar. Com uma interpretação contida, mas carregada de significação, Tim Roth se destaca pela carga que parece carregar nos ombros. Como se o peso do mundo e o das decisões definitivas o puxassem cada vez mais pra baixo. Incapaz de lidar com a própria vida, talvez, só lhe reste lidar com a vida de seus pacientes. Vivê-las até que não existam mais. E correr para a próxima vida ou para a próxima morte.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho