MostraSP: comentários sobre alguns dos filmes vistos #4

“Pixadores”, de Amir Escandari

O documentário do cineasta iraniano Amir Escandari tenta apresentar a cultura do pixo de São Paulo por meio de um grupo de pixadores liderado por Djan, um rapaz que tomou para si a responsabilidade de ser a voz desse movimento, que tem muito mais do que apenas atos de vandalismo e contravenção. Djan já havia sido personagem de outro documentário, Pixo, de João Wainer e Roberto T. Oliveira, que também mostrava essa cena da arte de rua na capital paulista e dava voz aos pixadores. Aqui, o que vemos é apenas uma repetição mais rasa do que já havia sido feito no documentário de 2009, mas com uma passagem interessante desses rapazes pela bienal de Berlim, onde foram convidados para discutir as questões políticas por trás da pixação e para deixarem sua marca por lá. Essa é, de longe, a melhor passagem do filme e, talvez, a única que de fato acrescente ao que já havia sido mostrado em Pixo. O restante, é uma tentativa não muito bem sucedida de humanizar alguns dos personagens, mostrando suas origens humildes nas periferias de São Paulo, mas recheada de frases de efeito e câmeras lentas que mais parecem preparadas para um comercial de TV. Pixadores não é consistente como documentário e também não será lembrado como um documento histórico desse movimento, já que Pixo faz isso muito melhor do que ele e apresenta bem essa cultura para quem acha que pixação é só vandalismo inconsequente de um bando de marginais. Há muito mais coisas por trás daquelas letras quase ilegíveis, mas é preciso dedicação para decifrá-las. E não é assim mesmo com a arte?

“Túmulos e Ossos”, de Anton Sigurdsson

Casal vive uma fase complicada da vida, após a perda da filha e um processo judicial pelo qual passa o marido, acusado de realizar negócios ilegais com sua empresa. Em meio a isso, eles se veem obrigados a ir cuidar de uma sobrinha, que acabou de perder os pais de maneira trágica. Ao chegarem em sua casa, ~eventos estranhos começam a acontecer~. Não gastarei muitas palavras para comentar esse filme que, de tão constrangedor, me fez sair da sala com 50 minutos (que pareceram durar 3 horas). O longa é recheado de clichês mal utilizados do terror, tentativas de sustos fáceis e aparições repentinas que, se bem executadas, ao menos fariam algumas pessoas saltarem em sua cadeiras, o que já seria bobo e ultrapassado, mas nem isso. As atuações são tão sofríveis que valem destaque: o marido é tão carismático quanto uma porta, mas acredite, dá pra ser pior. Sua esposa tenta ser mais expressiva, mas é uma atriz sofrível. A cena em que ela olha “assustada” pela janela enquanto seu marido está lá fora com uma arma indo atrás de uma possível invasão na residência é uma das coisas mais assombrosas (da maneira errada) que já vi. Agora chega, já falei demais sobre essa bomba. Vejam por sua conta e risco, mas não digam que não avisei.

“Aliança do Crime”, de Scott Cooper

Em plenos anos 1970, em Boston, nos EUA, um gângster irlandês conhecido como James ‘Whitey’ Bulger faz um acordo com o FBI para ser um informante e ajudar a destruir a máfia italiana que atua na cidade. O acordo é polêmico, já que o próprio Bulger é acusado de cometer inúmeros crimes, entre eles o assassinato de mais de uma dezena de pessoas, e isso pode levar não apenas o próprio gângster para a prisão, como também os policiais com os quais passa a manter contato. Um dos maiores méritos de Aliança do Crime é o fato de o diretor Scott Cooper conseguir manter o interesse do espectador durante 122 minutos em um filme que praticamente não tem cenas de ação. Quase toda a trama gira em torno da politicagem entre esses gângsteres e a polícia. Não à toa, ele lança mão de um elenco de peso, com Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Joel Edgerton e capitaneado por Johnny Depp, que tem uma atuação contida, se comparada a seus personagens mais excêntricos, como Jack Sparrow e seus trabalhos com o diretor Tim Burton, embora a maquiagem o deixe com a aparência meio bizarra também. Mas em alguns momentos é difícil desassociar esse filme de Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese, já que até mesmo a clássica cena com o Joe Pesci perguntando por que ele é engraçado ganha uma espécie de homenagem aqui. E confesso que não sei se chega a ser uma boa coisa uma referência tão explícita, porque depois disso é possível que todo mundo saia do cinema pensando no filme de Scorsese e não no de Cooper.

“Um Homem Decente”, de Micha Lewinsky

Thomas é um homem que tenta superar seus problemas do passado com a bebida e se envolver o mínimo possível em confusões. Quando ele decide levar sua família e a filha de seu chefe de férias para os alpes suíços, ele percebe que seus problemas apenas começaram. A garota é estuprada por um rapaz em uma festa, mas ele se sente responsável por ela e acaba servindo de confidente para a jovem, que lhe pede segredo sobre o que ocorreu. Por conta disso, ele se vê envolvido em uma rede de mentiras e meias verdades que podem lhe custar o emprego e a família. Um Homem Decente é um drama com toques de thriller e de comédia, que se sustenta, especialmente, pela atuação de Devid Striesow, que dá conta da tridimensionalidade de seu personagem. Sua atuação deixa explícitas as situações embaraçosas nas quais se encontra, sua insegurança em relação à família e ao trabalho e a maneira quase improvisada com que ele tem de lidar com todos aqueles problemas. O curioso é que, apesar de o filme enfatizar que Thomas tem problemas com a bebida, quando ele tem uma recaída, o filme não passa a focar apenas nisso. O fato influencia na maneira como a história se desenvolve, mas não a monopoliza a ponto de fazer com que tudo gire em torno do seu vício. Ótima decisão, já que a situação em que Thomas se encontra é, por si só, complicada. E nessa história de incidentes e acidentes, ele fará de tudo para causar o mínimo de dano possível em suas relações. Mas o mínimo de dano não quer dizer dano algum.

“Aconteceu Naquela Noite”, de Frank Capra

Aconteceu Naquela Noite é um dos maiores clássicos das comédias malucas (screwball), e por que não dizer do cinema? Foi o primeiro filme a vencer as cinco principais estatuetas do Oscar: Roteiro, Ator, Atriz, Diretor e Filme. Mas não são os prêmios que fazem dele clássico, óbvio, é toda uma conjunção de fatores. A influência que teve para as comédias da época (lembrando que o longa é de 1934) é enorme, o roteiro é muito bem escrito e cheio de momentos engraçados e com réplicas rápidas e inteligentes. As atuações de Clark Gable e Claudette Colbert são memoráveis e com uma química que deve ser invejada por qualquer casal protagonista. Ellie é uma jovem que está prestes a se casar com um milionário, contra a vontade do pai. Ela foge de casa para encontrá-lo em Nova York, mas no caminho conhece Peter Warne, um jornalista meio fracassado meio sacana, e a partir daí a mágica acontece. Os dois se desentendem, se provocam, se metem em ~altas confusões~, se aceitam, se apaixonam… e o resto é história. Se não viu ainda, procure o quanto antes, não irá se arrepender.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho