MostraSP: comentários sobre alguns dos filmes vistos #5

“Califórnia”, de Marina Person

Estela é uma adolescente nos anos 1980 que tem como ídolo seu tio, Carlos, que mora na Califórnia, o lugar de seus sonhos. Ela se prepara para conhecer a cidade enquanto vive todas as dúvidas e incertezas da vida adolescente, especialmente em relação aos amores. Mas sua viagem é cancelada assim que o tio volta para o Brasil, doente. O filme de Marina Person é um retrato dos anos 80, cheio de referências musicais e cinematográficas do período, e sua protagonista, principalmente por conta da semelhança física, nos faz crer que é um alter ego da própria cineasta. É bem realizado, a história é bonitinha, os atores são carismáticos e tudo mais, mas já vimos esse filme centenas de vezes nos últimos 30 anos. A história da adolescente que se apaixona pelo rapaz esportista, que não lhe dá o devido valor, e aí depois se aproxima do novo aluno, um tipo esquisito e mal visto entre os outros colegas, as referências musicais e cinematográficas que saltam na tela a todo momento (talvez para conquistar o público mais velho, nostálgico), a ameaça da Aids… tudo soa clichê e repetitivo, mas bem filmado, diga-se de passagem. É o primeiro longa de ficção de Marina Person, que antes realizou apenas um documentário sobre seu pai, o cineasta Luís Sérgio Person, então vale acompanhar o que ela fará daqui pra frente. Mas é possível que Califórnia funcione bem com os jovens de hoje, porque é um bom romance adolescente, e com os adultos por conta da questão nostálgica. Mas que não traz nada de novo, isso não traz mesmo.

“Dheepan: O Refúgio”, de Jacques Audiard

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes desse ano, o longa de Jacques Audiard conta a história de um ex-soldado do Sri Lanka que se une a uma mulher e uma garota para se passarem por uma família e, assim, conseguirem asilo como refugiados na França. Eles mal se conhecem, apenas a menina consegue se virar com o idioma, mas juntos, tentarão dar um novo recomeço em suas vidas. O longa pega carona num tema importante e atual, que é a dos imigrantes/refugiados na Europa, e duvido que esse fator não tenha sido levado em consideração pelo júri presidido pelos irmãos Coen, em Cannes. Em contrapartida, é inegável que Jacques Audiard sabe como contar uma história e como construir uma tensão crescente, que culmina em um clímax arrebatador – já havia feito isso em O Profeta (2009), que lhe rendeu o prêmio do júri em Cannes. O problema de Dheepan, e que talvez faça muita gente sair do cinema com um sentimento esquisito em relação ao filme, é que ele tem um epílogo que destoa de toda a atmosfera do filme. A impressão é de que o diretor tentou dar uma esperança a esses milhares de refugiados na Europa, de que é possível construir uma nova vida em um país estrangeiro, apesar de todas as dificuldades. Moralmente, é uma atitude admirável. Mas é preciso fazer com que isso combine com a história contada, para que a obra não seja afetada negativamente. E talvez tenha sido.

“Pervert Park”, de Lasse Barkfors e Frida Barkfors

O documentário mostra um pouco da rotina de alguns dos moradores da Florida Justice Transitions, uma comunidade que abriga 120 condenados por crimes sexuais no estado da Flórida, nos EUA. A comunidade foi criada exatamente para que esses condenados pudessem ter um local seguro onde morar após cumprirem suas penas, já que não são bem vistos pela sociedade e, por conta de suas condenações, são obrigados a morar a distâncias seguras de parques, escolas e outros locais frequentados por crianças. Aqui, o intuito de Lasse e Frida Barkfors é mostrar como vivem algumas dessas pessoas que tentam se reintegrar à sociedade e aposta em depoimentos que humaniza esses criminosos, sem que haja qualquer defesa de seus atos ou que essas atrocidades sejam diminuídas. Pelo contrário, os próprios moradores dessa comunidade, conhecida popularmente como Pervert Park, assumem publicamente os crimes que cometeram, tentam enxergar o que talvez os tenha motivado a cometê-los e contam com apoio terapêutico para que não reincidam em seus crimes. É um ótimo exercício de empatia tentar entender a psicologia desses criminosos e romper os paradigmas sociais que nos fazem enxergá-los apenas como monstros incorrigíveis.

“Bom Dia, Tristeza”, de Otto Preminger

Um dos primeiros trabalhos de Jean Seberg, que anos depois seria imortalizada por Godard em Acossado, o longa de Otto Preminger Bom Dia, Tristeza conta a história da jovem Cecile, que vive com o pai, Raymond, um bon vivant rico e mulherengo que está prestes a se casar com a uma das melhores amigas de sua falecida esposa, Anne (Deborah Kerr). Embora Cecile e Anne se deem bem e gostem uma da outra, essa nova relação envolvendo Raymond pode atrapalhar a vida da garota, que puxou ao pai no costume de gostar de viver a vida sem precisar assumir grandes responsabilidades. O casamento de seu pai com Anne pode acabar com essa rotina, pois sua futura madrasta se mostra uma mulher bastante controladora. Apesar de o longa poder ser descrito como um drama, já que começa com Cecile nos contando o porquê sua vida passou a ser muito triste, durante a maior parte do tempo ele tem um tom leve e divertido de comédia, pois se passa a maior parte do tempo durante as férias de Cecile com o pai, a então namorada dele, Elsa, e Anne, na Riviera Francesa. Apesar do início e final serem mais voltados ao drama, Bom Dia, Tristeza é um filme com ótimo bom humor e um elenco excelente, especialmente por Jean Seberg e por Mylène Demongeot, atriz que interpreta Elsa, uma personagem que lembra muito os tipos vividos por Marilyn Monroe no mesmo período. Esse é mais um daqueles filmes que fazem da programação de retrospectiva da Mostra ser uma das melhores coisas do evento.

“Son of Saul”, de László Nemes

Uma das questões mais comentadas desde que Son of Saul se destacou em Cannes e saiu de lá com o Grande Prêmio do Júri foi: “será que já não foram contadas todas as histórias sobre o Holocausto?”. A resposta parece vir no filme de László Nemes: não. O longa conta a história de um húngaro que vive em um campo de trabalho durante a Segunda Guerra Mundial e que descobre que seu filho morreu. Agora, ele tenta o mais rápido que pode encontrar um rabino que possa dar um enterro dentro dos costumes judaicos a essa criança, ao mesmo tempo em que precisa esconder seu corpo até que possa realizar o sepultamento antes que ele seja jogado em uma vala comum ou cremado. Além de tudo isso, ele precisa se manter vivo, o que por si só já é um grande desafio.

Com uma razão de aspecto de 1.37:1, num formato de tela quase quadrado, o longa passa uma sensação enorme de claustrofobia, especialmente porque abusa dos closes em seu protagonista e nos personagens que vão aparecendo ao longo de sua empreitada. Esse recurso é muito bem usado pelo diretor, pois naquele momento não nos importa saber o que acontece ao redor de Saul, mas sim como ele reage durante as situações em que vai se enfiando aos poucos. Aliás, o dinamismo de Son of Saul é um de seus grandes trunfos, já que em momento algum o filme se torna cansativo, apesar de mostrar quase o tempo todo a câmera colada no protagonista, acompanhando de perto cada um de seus movimentos. Saul é pau pra toda obra naquele campo e a todo momento é puxado e levado daqui para ali, interrompe uma tarefa e inicia outra imediatamente, sem questionar, sem se mostrar cansado ou incapaz. Entendemos, assim, que essa atitude é exatamente o que o mantém vivo. Enquanto está ocupado, é útil. E se é útil, não há porque morrer, ainda.

Saul é frio, calculista e em momento algum se deixa afetar pelo emocional, seja porque àquele momento da guerra todas as emoções já haviam sido tiradas à força pelos nazistas, seja porque não havia tempo para se entregar às que talvez ainda restassem. Era preciso sobreviver e, para isso, era necessário ser racional. O tempo todo. A mono-expressão de Saul nos atemoriza. É sofrido ver que ele não sofre. É terrível que não haja espaço para a contestação, que não haja chance de revolta. Sentimos uma dor que ele não se permite sentir, pois não há tempo a perder, é preciso correr para salvar a si mesmo e a memória do filho morto. E, se possível (e não é possível), evitar que mais gente morra nesse meio tempo. Mas não há tempo para luto, porque mortos não entram em luto por si mesmos. E estão todos mortos, inclusive os que sobreviveram. Morreram nos campos e renasceram após serem libertados com o fim da guerra. E continuam morrendo todas as vezes em que o Holocausto é negado. E continuarão morrendo todas as vezes que um símbolo nazista for saudado. E é por isso que ainda não foram contadas todas as histórias sobre o Holocausto. Porque há pelo menos um Holocausto para cada judeu morto pelos nazistas. E para cada cigano, polonês, comunista, negro, homossexual, doente mental ou físico, testemunha de jeová, eslavo, soviético e todo não-ariano que teve sua vida tirada pelo regime nazista. E que não faltem filmes sobre o Holocausto pra que gente não corra o risco de ver algo do tipo se repetir. (E, infelizmente, possivelmente em menor proporção, continua se repetindo, mas sobre esses, quase não há filmes. E que haja!)

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho