MostraSP: comentários sobre alguns dos filmes vistos #6

“Barash”, de Michal Vinik

Naama Barash é uma jovem de 17 anos que vive em Israel e leva uma vida meio rebelde, com envolvimento com drogas e uma rotina pouco comum de se imaginar aos jovens daquele país. Quando uma nova aluna começa a estudar em sua escola, as duas iniciam um namoro, que serve como gatilho para que a gente acompanhe as novas descobertas de Barash, tanto nas questões sexuais quanto em relações sociais, já que ela se distancia um pouco das amigas de escola e começa a acompanhar a namorada em baladas regadas a álcool e drogas. Mas o filme não vai muito além disso e nem sua protagonista é suficientemente carismática pra que a gente se importe tanto com ela. No geral, é apenas mais um retrato comum de uma adolescência rebelde sem causa, que encontra nas drogas um escapismo ou apenas uma forma de chamar a atenção dos adultos, mas sem grandes consequências. Vale apenas pela curiosidade de ser um filme que se passa em Israel, mas mesmo isso também não tem tanta importância.

“Magical Girl, a Garota de Fogo”, de Carlos Vermut

Luis descobre que sua filha, que sofre de um câncer incurável, sonha em ter um vestido de uma personagem de um anime, mas que ele custa muito caro. Para agradar a filha, ele tentará de todas as formas conseguir esse dinheiro, mesmo que isso implique em atos imorais e criminosos. Em sua busca, seu destino se cruza com o de Bárbara, uma moça que sofre de problemas psicológicos, Bárbara, e um professor aposentado, Damián. Magical Girl é um filme interessante e com uma trama inicial que conquista o espectador por conta da relação do pai com a filha, mas se perde um pouco quando tenta entrelaçar todas essas histórias e fazer da trama um labirinto onde em algum ponto todas elas irão se encontrar. Imaginem a cena a seguir: Pedro Almodóvar, Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga entram em um bar… Pois é, o filme é quase uma colagem de características encontradas nos trabalhos dos três, sem que isso funcione de verdade. Não chega a ser um filme ruim, mas se torna bagunçado em determinados momentos e cheio de coincidências impostas para fazer com que a trama se amarre.

“Underdog”, de Ronnie Sandahl

Dino é uma jovem sueca que se muda para a Noruega à procura de uma nova vida. Mora em uma casa com outros jovens mais ou menos de sua idade e acaba de perder o emprego após quebrar o braço. Assim, se vê obrigada a trabalhar como empregada na casa de uma família de classe média e inicia um relacionamento às escondidas com o pai daquela família, que atualmente cuida sozinho da filha adolescente, pois sua esposa está em uma viagem a trabalho. Durante esse caso de alguns dias, o que vemos é uma relação que apenas arranha algumas questões sociais como a maneira como os suecos são vistos pelos noruegueses, talvez porque o índice de desenvolvimento humano do país seja um pouco menor que o da Noruega, líder nesse ranking, enquanto a Suécia ocupa “apenas” a 12ª posição. Em alguns momentos, os noruegueses comentam que os suecos “gostam de servir”, em referência aos jovens que acabam imigrando para seu país e se submetem a trabalhos considerados inferiores, como trabalhar servindo em restaurantes e cafés, ou até mesmo em serviços domésticos. Mas, como disse, é um tema que o filme apenas arranha muito por cima, sem realizar nenhuma crítica mais contundente a esse pensamento discriminatório ou até mesmo fazer uma grande denúncia sobre esse tipo de atitude.

“Homesick”, de Anne Sewitsky

Charlotte é uma professora de balé que reencontra o quase meio-irmão pela primeira vez depois de adulta. Digo quase, porque na verdade eles são filhos de pais diferentes, mas a mãe de Charlotte foi casada com o pai de Henrik quando os dois eram crianças. Ou seja, não são irmãos de fato e também não foram criados como tal, pois o casamento de seus pais não durou muito tempo. Logo, eles não possuem laços nem biológicos nem emocionais que façam com que ambos sintam-se irmãos. Durante esse primeiro reencontro, há um estranhamento, principalmente por parte de Henrik, que a trata meio mal porque ainda guarda mágoas da separação dos pais, já que a mãe de Charlotte parece tê-los abandonado. Mas eles logo começam a se dar bem e, inevitavelmente, iniciam uma relação às escondidas, já que Henrik é casado. O problema é que o filme parece ter se acovardado num tema que apenas sugere, o do incesto. Há um estranhamento inicial na relação dos dois por se considerarem meio-irmãos, no entanto, não o são de verdade e nunca tiveram sequer uma relação próxima. Então não há incesto, nem eles parecem se preocupar de verdade com isso. E o que vemos é apenas uma repentina paixão que, vez ou outra, é afetada pelas atitudes possessivas e até mesmo violentas de Henrik. O resto, é senso comum desinteressante e sem coragem de arriscar em temas polêmicos.

“A Floresta que se Move”, de Vinicius Coimbra

No segundo longa-metragem que comanda sozinho (já que em Love Film Festival ele divide a direção com outros três realizadores), Vinicius Coimbra adapta pela segunda vez uma história já consagrada. Seu primeiro trabalho, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de 2011, que até hoje não conseguiu ser lançado, era uma adaptação do conto quase homônimo de João Guimarães Rosa, A Hora e Vez de Augusto Matraga, sem o artigo no meio do título. Agora, ele realiza sua versão de Macbeth, tragédia de William Shakespeare, adaptada aos tempos atuais, onde o rei é substituído pelo presidente de um banco, vivido por Nelson Xavier. O protagonista, que aqui se chama Elias, é vivido por Gabriel Braga Nunes, e sua esposa, Lady Macbeth, ou Clara, por Ana Paula Arósio.

Ao voltar de uma viagem, Elias encontra uma bordadeira que prevê que ele se tornará vice-presidente do banco em um dia e, no dia seguinte, será o mais novo presidente. Ele duvida de suas previsões, mas logo é surpreendido pela notícia de que o atual vice-presidente foi afastado depois de ter sido descoberto desviando milhões de dólares. Ao assumir a vice-presidência, Elias fica apreensivo com a previsão da bordadeira e compartilha a informação com sua esposa, Clara. Que acaba convencendo-o a assassinar o presidente do banco em um jantar particular em sua casa, para assumir de uma vez por todas o comando da instituição. A partir daí, os dois precisarão viver com o tormento que esse assassinato trará para suas vidas e com a investigação da polícia, que já desconfia do possível envolvimento de Elias na morte do chefe.

O longa de Vinicius Coimbra é eficiente ao trazer para os dias atuais essa tragédia clássica do século 17 e tem como alicerce as consistentes atuações de Nelson Xavier, Gabriel Braga Nunes e Ana Paula Arósio, que emprega muita visceralidade em sua Lady Macbeth e nos faz acreditar de que é capaz de tudo para ver concretizados seus desejos mais gananciosos. Outro ponto interessante são algumas passagens em que o cineasta opta por manter o texto original de Shakespeare, especialmente em falas do próprio Macbeth, que deixam a obra menos naturalista e mais teatral, mas que não chega a destoar totalmente do filme. Pelo contrário, até combinam com o tom às vezes cerimonioso que ele assume, especialmente ao utilizar Heitor Villa Lobos como trilha.

O trabalho de Coimbra nesse filme me deixou com mais vontade ainda de assistir o quanto antes a seu Augusto Matraga e interessado por seu método de trabalho, que parece valorizar mais uma história clássica bem adaptada do que a criação de um roteiro original que talvez não se sustente como um bom filme. E o que não faltam são filmes pretensiosos com roteiros pobres, mas que tentam se promover apenas pelo “texto original” que apresentam, mas que não se equivalem a um único verso de um Shakespeare ou Guimarães.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho