MostraSP: comentários sobre alguns dos filmes vistos #7

“Armadilha”, de Brillante Ma. Mendoza

Após a passagem de um tufão em uma cidade nas Filipinas, acompanhamos um grupo de moradores dessa região tentando sobreviver e reconstruir aquilo que foi perdido por esse desastre da natureza. Eles procuram pelos mortos enquanto tentam se manter vivos, apesar dos riscos que ainda correm. O tempo não ajuda, as condições precárias em que vivem, muito menos. Só lhes resta a esperança e a força de vontade para arrecadarem o máximo que conseguirem para bancar as despesas dessa vida (e dessa morte) miserável. O longa de Brillante Ma. Mendoza começa bem, mostrando quase que de forma documental esses momentos de tensão durante um incêndio em uma cabana e depois o risco de um tsunami. O problema é que, com o tempo, a forma vai ficando cansativa e a gente comece a se distanciar dos personagens, ao invés de irmos nos apegando a eles. A história de Bebeth, a mulher que começa a arrecadar dinheiro entre os sobreviventes, vai se tornando cada vez mais melodramática por conta da perda de seus filhos, assim como a de outro sobrevivente, que perde toda sua família. Aos poucos, aquela realidade deixa de se tornar interessante, porque não aponta qualquer caminho de esperança nem de desesperança completa, e assume apenas uma carga enorme de resignação diante daquilo tudo.

“O Abraço da Serpente”, de Ciro Guerra

O longa se passa em dois períodos, com 40 anos de diferença, mas ligados pela figura de um xamã de uma tribo praticamente extinta, chamado Karamakate. No primeiro deles, um branco interessado na cultura indígena acaba contraindo uma doença que apenas Karamakate é capaz de curar, com a ajuda de uma planta rara. O segundo, marca a vinda de um novo cientista branco àquela região da Amazônia colombiana para procurar exatamente essa planta que foi encontrada 40 anos antes, mas que agora também está praticamente extinta. Em ambos os períodos, Karamakate se mostra reticente em manter uma relação com um homem branco, especialmente porque sabe que muitos índios morreram pelas mãos deles. Aliás, é curioso como ele também se revolta com um índio de outra tribo, que acompanha o primeiro cientista. Critica o fato de que ele ajuda o branco e de que já havia sido domesticado por ele, especialmente por estar vestindo roupas. O Abraço da Serpente é um retrato importante da dominação do homem branco europeu aos povos nativos das Américas. Mostra um pouco da crueldade e do egoísmo deles (nós, cara pálida!) diante de povos de outras culturas e etnias. De como nos sentimos superiores e somos capazes de tudo (até matar) para conseguirmos o que quer que seja. Nos falta a humildade que o próprio Karamakate demonstra ao ajudar aquele que considera como inimigo, apenas porque não consegue não agir com humanidade diante de alguém que se encontra em uma situação de risco.

“Bizarro”, de Etienne Faure

Jovem francês acaba de chegar a Nova York para tentar uma nova vida, fugindo de seu passado, e não tem amigos nem lugar para ficar. Até que conhece duas garotas que são sócias em um bar e que o convidam para trabalhar e morar no apartamento em que vivem, em cima desse estabelecimento. O nome do filme faz referência ao tipo de atração que esse bar recebe, que é quase um teatro de vaudeville focado apenas no circo de horrores, com artistas dos mais variados tipos, cujas performances giram sempre em torno de escatologias e bizarrices de toda sorte. Seria ótimo, inclusive, se o filme se focasse mais nessa rotina underground do bar, mas ela serve apenas para nos distrair momentaneamente da (tentativa de) trama principal. Esse rapaz francês acaba se tornando muito amigo de outro jovem que trabalha com ele no bar, que se apaixona por ele quando começa a dividir com ele um quarto na casa dessas meninas. Enquanto isso, o francês fica dividido entre o sentimento de amizade, uma possível dúvida em relação a sua sexualidade e aos encantos daquelas duas moças, que lhe deram um trabalho e um teto, e que podem lhe dar uma cama e, eventualmente, sexo a três. O problema é que o filme não se decide sobre a história que quer contar, já que mantém um suspense bobo sobre o passado desse garoto europeu, que no terceiro ato acaba virando o foco da narrativa com a chegada de um homem misterioso que o faz perder a sanidade. Pior, essa figura misteriosa se torna apenas canastrona, já que não sabemos ao certo quem ela é e porque está atrás dele. Resumindo: Bizarro não sabe se quer ser um drama focado nas descobertas da juventude, se quer ser um romance adolescente despretensioso e temperado por um circo de horrores, se quer ser um suspense… pelo jeito, a única coisa que ele parece ter se decidido é que não queria ser bom. E isso ele conseguiu com maestria.

“Um Caminho para Dois”, de Stanley Donen

Depois de dez anos casados, Mark e Joanna Wallace passam por uma crise. Durante uma viagem, os dois relembram diversos períodos desse relacionamento: como se conheceram, o flerte, o início do relacionamento, as viagens e o desejo compartilhado de não terem filhos. O filme é recheado de momentos de bom humor e a química entre Audrey Hepburn e Albert Finney é ótima. Um dos grandes destaques é a montagem, que percorre vários períodos diferentes desse relacionamento sem que isso fique confuso em momento algum. Várias cenas de períodos diferentes são ligadas por rimas visuais elegantes e dinâmicas, que mostram um cuidadoso trabalho de decupagem do cineasta Stanley Donen. Mas enquanto a câmera está em Audrey Hepburn, é difícil prestar atenção em qualquer outra coisa. Beleza e carisma que poucas atrizes de Hollywood conseguiram ter.

“O Botão de Pérola”, de Patricio Guzmán

Patricio Guzmán é mais do que um ótimo documentarista, é um dos maiores. Sua trilogia sobre o golpe de Estado no Chile, A Batalha do Chile, mais os documentários sobre o ditador Augusto Pinochet e o presidente Salvador Allende, são obrigatórios pra quem se interessa por política ou sobre a América Latina. São tratados sobre a história chilena como quase nenhum cineasta fez sobre seu próprio país. Aqui, em O Botão de Pérola, Guzmán dá mais uma aula ao se aproveitar da gigantesca costa do Chile para realizar uma poesia sobre a água, do espaço sideral ao indivíduo, remontando aos povos nativos da Terra do Fogo e às vítimas da ditadura chilena, que eram jogados ao mar (muitos ainda com vida) com um trilho de trem amarrado no peito para que o corpo afundasse no oceano. Em uma das expedições que mergulhadores fizeram para retirar esses trilhos do fundo do mar, foi encontrado um botão preso ao metal. O único resquício de que uma vida humana havia estado ali, junto daquele pedaço de ferro degradado pelo tempo e pela água. Esse botão serve de elo entre o cidadão chileno moderno e os povos nativos daquela região, representados pela figura de Jemmy Button, um nativo que foi levado para a Europa depois de uma expedição dos europeus no século 19 e trazido de volta, um ano depois, na companhia de Charles Darwin. Essa rima entre os botões estabelecida por Guzmán fecha com maestria uma obra que trata da natureza humana e da submissão que alguns homens impõem a outros, seja por serem de etnias diferentes ou de visões políticas (e interesses econômicos, principalmente) divergentes. Guzmán é MESTRE. E seu cinema, ARTE. Assim, em caixa alta mesmo.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho