MostraSP: comentários sobre alguns dos filmes vistos #1

A 39ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo começou no último dia 22 e apenas agora conseguimos um tempo para comentar alguns dos longas vistos. Não prometo escrever sobre todos a que assistir, mas devo ir subindo aos poucos alguns breves comentários sobre eles. Não serão críticas, porque o tempo é realmente curto, mas à medida que alguns desses filmes sejam lançados em circuito comercial, podemos analisá-los com mais calma e dedicação.

Críticas, sugestões, indicações de bons filmes pra ver na Mostra, postem nos comentários ou nas nossas redes sociais: facebook twitter.

“Sabor da Vida”, de Naomi Kawase

Sentaro é um homem acomodado na sua condição de gerente de uma pequena loja de dorayakis, um doce japonês que consiste em minipanquecas recheadas com uma pasta de feijão. Ele possui poucos, mas fiéis clientes. Em geral, jovens estudantes. Sua monótona rotina muda quando uma senhora o procura, pedindo emprego. Duvidoso de que ela será capaz de ajudá-lo, por causa de sua idade e condições físicas visivelmente frágeis, ele a recusa. Mas ela não desiste. Após oferecer uma amostra grátis de sua pasta de feijão, ele se dá por convencido e a contrata para produzir o recheio de sua iguaria. Aos poucos, essa parceria se torna muito mais íntima do que apenas a relação empregada e patrão, especialmente porque a senhora Tokue, com toda sua calma e carinho (especialmente com o doce), fará com que Sentaro enxergue a vida de uma maneira totalmente diferente. Com uma delicadeza que em vários momentos chega a lembrar o cinema de Yasujiro Ozu, ao retratar o cotidiano de forma doce (perdão pelo trocadilho não intencional) e sutil, Naromi Kawase faz um filme belíssimo sobre uma relação de amizade (quase maternal) e sobre como pode ser cruel o sentimento de não-pertencimento a que algumas pessoas estão fadadas a vivenciar. E que atriz fabulosa é a Kirin Kiki!

“Bem-vindo ao Clube”, de Andreas Schimmelbusch

O longa tenta traçar um perfil psicológico do suicídio tendo como foco uma atriz que deseja se matar. Ela procura um hotel que oferece em seu menu diversos métodos de acabar com a própria vida. No entanto, ao conhecer um funcionário desse hotel, os dois começam a se relacionar e logo ela desiste de seu ato. O filme se perde na tentativa de estabelecer camadas simbólicas para representar as intenções suicidas de seus personagens e promove uma miscelânea de mudanças na personalidade de cada um, ao mesmo tempo em que tenta deixar o tema mais leve com a utilização de um humor negro. Isso até funciona em determinados momentos, mas dada a complexidade que o diretor tenta dar à sua narrativa, parece não haver um respiro entre um seguimento mais bem humorado e outro mais dramático. Essas mudanças abruptas de personagens, somadas ao clima onírico que o filme assume em determinados momentos, deixa-o mais confuso do que deveria. Uma pena, já que a premissa é interessante e ficamos com vontade de saber mais sobre aquele hotel e sobre os possíveis clientes que ele poderia ter.

Bridgend“, de Jeppe Rønde

Pai e filha se mudam para uma pequena cidade no País de Gales onde uma série de jovens têm se suicidado. O homem é policial e vai trabalhar na investigação desses casos para tentar descobrir qual a motivação por trás dessas mortes. Nesse meio tempo, sua filha, que tem mais ou menos a mesma idade que esse grupo de jovens, fica amiga deles e começa a namorar um dos rapazes, até que novas mortes começam a acontecer. A construção da narrativa é bem elaborada e desenvolve com eficiência o drama e a crescente tensão das relações entre esses jovens, que usam como justificativa para seus suicídios a relação conflituosa que têm com os pais. Em meio a isso, cria-se uma espécie de culto aos amigos que se suicidam, quase como se o ato tivesse um viés heroico, especialmente porque sempre são realizados com o intuito de chocar os pais do suicida, como se apenas a morte em si já não fosse o suficiente. Vale destacar que a trilha sonora remete em alguns momentos aos longas de terror dos anos 1980. O filme é inspirado em fatos e há registros de que dezenas de adolescentes cometeram suicídios entre 2007 e 2013 no País de Gales, sem que se descobrisse o real motivo para esses atos, embora o filme dê essa justificativa.

“Para o Outro Lado”, de Kiyoshi Kurosawa

O longa conta a história de um casal que se reencontra após 3 anos do desaparecimento do marido, que morreu afogado. Passado esse período, ele retorna para casa e revê a esposa, que não se espanta ao ver o espírito do marido. Essa aparição é tratada por ela com naturalidade, como se de fato fosse um acontecimento comum. Ele propõe que ela o acompanhe por lugares onde ele conheceu durante esse período em que esteve ausente. Nessas viagens, ela acaba conhecendo outras pessoas que, assim como ele, já estão mortas. O grande problema do filme de Kiyoshi Kurosawa é que ele trata essa questão dos espíritos com um naturalismo tão grande que, salvo nos momentos em que esses mortos aparecem e desaparecem instantaneamente, eles não têm nada de etéreos nem tampouco aparecem apenas para algumas pessoas. Pelo contrário, eles interagem naturalmente com qualquer um e com qualquer objeto. Se alimentam, inclusive. Ou seja, é como se estivéssemos assistindo a um filme em que todos os personagens estão vivos. Perde-se o efeito “espiritual” que a história poderia ter e passa a ser apenas uma história comum, sobre um casal que sai de casa para visitar outras pessoas e lugares tão desinteressantes quanto eles próprios.

“Olmo e a Gaivota”, de Petra Costa e Lea Glob

O projeto do documentário foi iniciado com o intuito de registrar um dia na vida de uma mulher comum, sem grandes acontecimentos. No entanto, já no início das filmagens, as cineastas foram surpreendidas pela notícia da gravidez de Olivia, a protagonista. Assim, o filme passa a acompanhar essa gestação, que chega justo no momento em que Olivia começaria a ensaiar a peça “A Gaivota”, de Anton Tchekov, para uma temporada de apresentações em Nova York, mas que, por conta de uma complicação, ela não poderá encenar. Olivia passa praticamente toda a gravidez reclusa em seu apartamento e a câmera acompanha sua intimidade com o marido, Serge. O ponto forte do documentário é justamente a relação desse casal. Os dois são muito carismáticos e divertidos, então mesmo os momentos mais dramáticos são pontuados com um leve toque de humor. Soma-se a isso o fato de que tudo é filmado com muita naturalidade, praticamente sem que as diretoras interfiram na narrativa, com exceção de dois breves momentos que rendem boas risadas, com uma câmera que é quase cúmplice daquela rotina e que, exatamente por isso, não se preocupa com tabus ou moralismos.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho