Oscar 2013: Ang Lee

ang lee

Responsável por longas sensíveis e intimistas, Ang Lee é um dos cineastas mais competentes da atualidade. O conflito entre gerações, principalmente quando se diz respeito a pais e filhos, compõe a característica principal de sua filmografia.

Nascido no Taiwan, o cineasta conseguiu chamar a atenção da crítica mundial com os longas Arte de Viver (1992), Banquete de Casamento (1993) e Comer Beber Viver (1994). Falados em mandarim, esses três filmes, que abordam os principais costumes orientais, ajudaram o cineasta a chamar a atenção dos produtores do Ocidente, que convidaram Lee para dirigir algumas produções por aqui.

A primeira delas foi a adaptação de um dos principais exemplares da literatura inglesa, o clássico Razão e Sensibilidade, de Jane Austen. Estrelado por Emma Thompson e Kate Winslet, o longa de mesmo nome foi um dos grandes destaques do Oscar 1996, mas ainda assim, Ang Lee ficou de fora da premiação.

Inconformada com a esnobada ao diretor, Thompson não perdoou os membros da Academia e, durante o seu discurso após ter recebido a estatueta pelo Roteiro Adaptado do filme, disparou afiadas alfinetas pela não indicação de Lee na categoria de Direção.

Dois anos depois, o cineasta realizou o seu mais subestimado trabalho, o drama Tempestade de Gelo, que contou com grandes atuações de Sigourney Weaver e Christina Ricci. Ambientado no início da década de 1970, o longa é um retrato da sociedade norte-americana e de suas descobertas sexuais sob a ótica do escândalo de Watergate. Belo e impactante, esta produção é um tesouro a ser descoberto na filmografia do diretor.

o tigre e o dragão

O Tigre e o Dragão

No projeto seguinte, Lee realizou o western com pitadas existenciais Cavalgada com o Diabo (1999), mas o filme foi esnobado por público e crítica e praticamente jogado para debaixo do tapete da filmografia do diretor. A recuperação viria em grande estilo no ano seguinte, com o excepcional O Tigre e o Dragão, no qual o diretor ignorou a lei da gravidade e colocou samurais para lutarem em cima de longos bambuzais.

O longa conquistou 10 indicações ao Oscar daquele ano, incluindo a primeira de Lee na categoria de Direção. O cineasta não venceu, mas viu o seu filme arrebatar quatro estatuetas, incluindo a de Melhor Filme Estrangeiro. Provando que até mesmo os maiores talentos são propensos a falhas, o cineasta teve a insensatez de aceitar o convite para dirigir a adaptação dos quadrinhos do Hulk para as telonas.

Como previsto, a ideia foi um tiro no pé, e este sonífero longa do Gigante Esmeralda é visto até hoje como uma das piores adaptações de uma história em quadrinhos para o cinema. Ainda assim, existem aqueles que acreditam que o longa tenha sido incompreendido e que os anos farão a devida justiça a ele. Duvido.

brokeback mountain

O Segredo de Brokeback Mountain

Quando todos pensavam que a carreira do cineasta estava acabada em Hollywood, ele teve a ousada ideia de levar para as telas a adaptação de um conto sobre dois cowboys gays que mantiveram um romance de duas décadas escondido dos familiares e da sociedade. Além de faturar o Leão de Ouro em Veneza e ser o grande vencedor do Globo de Ouro, O Segredo de Brokeback Mountain foi indicado a oito categorias do Oscar, arrebatando três delas, incluindo a de Lee como Melhor Diretor.

Embora não considere o filme esta maravilha toda, reconheço que ele era bem melhor do que o enfadonho Crash – No Limite, que saiu da cerimônia do Oscar de 2006 com o surpreendente prêmio de Melhor Filme. Uma lástima. No projeto seguinte, Lee causou polêmica com as ousadas cenas de nudez e sexo de Desejo e Perigo, mas ainda assim faturou, mesmo sob muitas veias, o seu segundo Leão Ouro em Veneza. Em seguida, o cineasta prestou a sua homenagem para um dos grandes movimentos musicais da história, com o sensível e divertido Aconteceu em Woodstock.

Mas nada que se compara ao belo e sensível As Aventuras de Pi, que na premiação da Academia deste ano foi indicado em 11 categorias, entre elas, claro, encontra-se a terceira da carreira do taiwanês como Melhor Diretor. Contando com as cenas mais belas do ano passado, Pi é uma excelente prova de que, quando utilizada por um cineasta talentoso como Lee, a tecnologia 3D pode agregar elementos mágicos e aumentar a capacidade de percepção de um longa e não transformá-lo, como alguns diretores menos afortunados fazem, num emaranhado de cenas vertiginosas e cheias de firulas .

Com esta sensacional produção, que fala de fé sem levantar bandeiras religiosas, mistura entretenimento de primeira com atuações emocionantes e traz uma das melhores criaturas digitais já vistas no cinema (o formidável tigre Richard Parker), Lee prova que um verdadeiro mestre nunca cansa de nos surpreender. E, mais uma vez, dá uma aula de como transformar um filme numa verdadeira obra de arte.

as aventuras de pi

As Aventuras de Pi

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com