OSCAR 2014: conheça os indicados à categoria de Melhor Filme

Desde 2010, a Academia de Artes e Ciência Cinematográficas de Hollywood alterou o número de filmes que podem ser indicados à categoria principal para no mínimo cinco e no máximo dez nomes. Para ser indicado a Melhor Filme, um longa deve ter aparecido em primeiro lugar na votação entre os membros da entidade em pelo menos 5% dos votos. Todos os votantes elencam dez títulos que julgam ser os melhores do ano e apenas quem consegue esses 5% é que aparece na lista final. Por isso, nem sempre a categoria é preenchida com o máximo de filmes que ela permite. Nos últimos três anos, apenas nove longas receberam o mínimo de votos.

Desta vez, desde que as regras foram alteradas, parece que temos uma das seleções mais equilibradas desta categoria, com todos os filmes figurando entre bons e ótimos. Não há nenhuma grande decepção, como chegou a aparecer em alguns dos anos anteriores (alô, Tão Forte, Tão Perto e Minhas Mães e Meu Pai). Como o nível médio subiu, também estamos em um ano em que a competição não ficou polarizada entre apenas dois longas, já que 12 Anos de Escravidão, Trapaça e Gravidade são os três que correm na frente nessa disputa, mas não seria tão surpreendente se víssemos O Lobo de Wall Street e até mesmo Capitão Phillips vencedores.

Alguns dos filmes “menores” (no sentido de não serem grandes produções) indicados, têm menos chances, como Ela, Philomena e Nebraska, por exemplo, mas são justamente alguns dos fortes concorrentes nas categorias de roteiro. Resumindo: 2013 foi um bom ano para o cinema, principalmente se levarmos em consideração os filmes que poderiam ter entrado nessa seleção e também acabaram de fora, como Rush: No Limite da Emoção, Inside Llewyn Davis, Azul é a Cor Mais Quente, Blue Jasmine, Fruitvale Station, entre outros.

Conheça abaixo os nove indicados deste ano e escolha o seu favorito!

12 Anos de Escravidão: dirigido por Steve McQueen (Shame), é o filme com mais “cara de Oscar” da temporada. É um drama histórico que adapta o livro homônimo de Solomon Northup, um negro livre norte-americano que, no século 19, acaba sendo sequestrado e vendido como escravo. No longa, Chiwetel Ejiofor interpreta Northup e se destaca exatamente pela atuação moderada, sem pender para um exagero que poderia fazer do filme um grande dramalhão. Méritos para a direção de McQueen, que soube como conduzir a história, que já é pesada por si só, de uma maneira universal, fazendo com que possamos entender como era o clima da relação dos senhorios brancos com seus escravos, tudo isso dentro de um pequeno universo do protagonista. E, sim, como andam dizendo por aí, 12 Anos de Escravidão é um filme importante sobre a questão do racismo e, mais especificamente, sobre o período da escravidão norte-americana, não apenas por retratar sem pudores a violência da época, mas também porque ninguém o poderá acusá-lo de ser a visão dos brancos sobre a questão dos escravos, já que seu diretor é negro. É, ao lado de Gravidade, o grande favorito para a categoria principal, e conta a seu favor ter vencido prêmios importantes, mesmo não tendo influência direta no Oscar, como o Globo de Ouro e o Bafta. Mas o fato de ser um filme pesado sobre a escravidão também pode atrapalhar sua campanha.

Gravidade: dirigido por Alfonso Cuarón (Filhos da Esperança), este drama de ficção científica se destaca principalmente pelo primor técnico. Cuarón é um virtuoso nesse quesito e deixou muita gente de boca aberta com o espetáculo visual que promoveu com o filme estrelado por Sandra Bullock. No longa, ela interpreta uma engenheira médica em sua primeira missão no espaço e precisa tentar sobreviver a um acidente espacial que matou toda a tripulação do ônibus comandado por George Clooney. Com um clima tenso, que vai da agorafobia à claustrofobia, Gravidade é um ótimo drama de sobrevivência e a protagonista terá de encontrar forças não apenas para resistir àquelas dificuldades, mas também para superar seus dramas da Terra, que a impedem de ter uma vida normal. Além da questão técnica, outro grande destaque é a própria Sandra Bullock, que carrega praticamente o filme inteiro sozinha, numa atuação bastante emocionante e, diga-se de passagem, muito melhor que a que lhe rendeu seu primeiro Oscar de Melhor Atriz, por Um Sonho Possível. Conta a favor do filme o fato dele ser um dos longas indicados que menos tem detratores, é difícil encontrar quem tenha desgostado do filme, mas flertar com a ficção científica ainda conta como demérito na visão da Academia e pode atrapalhá-lo na disputa final.

Trapaça: dirigido por David O. Russell (O Lado Bom da Vida), esse thriller policial com toques de humor à lá O. Russell conta a história de um casal de vigaristas, interpretado por Christian Bale e Amy Adams, que se vê obrigado a colaborar com o FBI para prender políticos corruptos, com a intenção de diminuírem a própria pena. O longa tem recebido apoio de muita gente em Hollywood e feito uma campanha pesada na corrida pelo Oscar, que acabou lhe rendendo 10 indicações ao prêmio, o mesmo número que Gravidade, mas com destaque para todas as categorias de atuação, onde emplacou um nome em cada uma delas. É o único filme entre os indicados capaz de vencer o Big Five, como são conhecidas as cinco principais categorias da noite (Filme, Direção, Ator, Atriz e Roteiro). Em 86 anos, isso só aconteceu em três oportunidades. O que conta como negativo para o filme de O. Russell, no entanto, é que ele na verdade não é um grande filme. É eficaz, mas inofensivo. Apesar de todas as indicações, não é favorito em nenhuma delas. E, pior, tem contado muito como ponto negativo o fato dele acabar lembrando demais o estilo de Martin Scorsese. E num ano onde o próprio Scorsese concorre com um filme, muitos dos votantes devem fazer a relação de um com outro e optar pelo original, não a cópia, ou pelo menos rejeitando o filme de O. Russell e optando por qualquer dos outros indicados.

O Lobo de Wall Street: dirigido pelo septuagenário Martin Scorsese, essa comédia cheia de exageros conta a história de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), um corretor da Bolsa de Valores que utiliza da sua lábia para aplicar golpes em seus clientes e faturar milhões com a compra e venda de ações que, na verdade, só fazem com que ele enriqueça. Entre um milhão e outro, Belfort vive uma vida cheia de excessos, com alto consumo de drogas, mulheres e festas. E o filme mostra exatamente a ascenção e queda desse ícone do golpismo. Além de estar investindo pesado nas campanhas de marketing nessa reta final da premiação, com várias participações de seu elenco, e até do próprio Scorsese, em programas de TV, conta a seu favor o fato de que pode conquistar votos entre aqueles que não querem premiar um filme sobre escravos, ou uma ficção científica, ou até mesmo um filme que copia descaradamente o estilo do próprio Scorsese. Em contrapartida, o fato de mostrar sem qualquer julgamento de valor um personagem ética e moralmente questionável, tem feito com que o filme ganhe uma propaganda negativa em Hollywood, com alegações de que ele faz apologia ao estilo de vida do protagonista. Confesso que este é o filme pelo qual torço, mesmo sabendo que dificilmente sairá vencedor. Mas vai que…

Capitão Phillips: dirigido por Paul Greengrass, o longa conta a história de um sequestro de um navio cargueiro realizado por piratas somalis. Protagonizado por Tom Hanks, em um de seus melhores papéis dos últimos anos, o drama vai ficando cada vez mais pesado à medida que as exigências do líder do grupo de piratas, vivido pelo estreante e já indicado ao Oscar Barkhad Abdi, demoram a ser cumpridas. Durante o tempo todo, os dois núcleos de personagens, piratas e tripulação do cargueiro, caminham na linha tênue que separa a vida da morte, já que estão todos com os nervos à flor da pele. Muito bem dirigido por Greengrass, que acabou esquecido pela Academia, o longa tem ganhado uma nova força na reta final do Oscar com sua campanha de marketing. Como foi um dos primeiros filmes entre os indicados a ser lançado nos cinemas, acabou perdendo força no meio da temporada, justamente quando a maior parte dos outros indicados estava sendo lançada. Mas esse último respiro na reta final não deve ser suficiente para garantir que ele ultrapasse os filmes listados acima.

Ela: dirigido por Spike Jonze (Onde Vivem os Monstros), essa belíssima história de amor entre um homem comum, interpretado por Joaquin Phoenix, e um sistema operacional, com voz de Scarlett Johansson, tem conquistado os corações de muita gente. Principalmente dos mais jovens e pouco afeiçoados ao “sistema Oscar”. Em um futuro distópico, Theodore (Phoenix) ganha a vida trabalhando como escritor de cartas profissional que, após comprar um novo sistema operacional, com personalidade e inteligência próprias, se apaixona pela voz do programa e inicia uma relação amorosa com “ela”, Samantha (Johansson). Com o roteiro mais original entre os concorrentes ao Oscar, escrito pelo próprio diretor, o filme explora muito bem a relação dos seres humanos com a tecnologia e também com nós mesmos. As angústias, ausências e a falta de comunicação da vida moderna. Justamente numa vida que exagera na quantidade de ferramentas para comunicação. Tanto Joaquin quanto Scarlett mereciam ter sido reconhecidos pela Academia por suas atuações, principalmente pela sutileza com que interpretam personagens tão complexos. Alguns dizem que esse filme seria uma resposta para Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, já que Spike Jonze e a cineasta foram casados, e o filme de Sofia seria justamente sobre o período de decadência da relação dos dois. Em Ela, Theodore acaba de sair de um casamento fracassado com a personagem interpretada por Rooney Mara. Seria esse o retrato da relação de Jonze com Sofia? Dificilmente, um dia saberemos. Suas chances na categoria de Melhor Filme são praticamente nulas, mas é o grande favorito entre os roteiros originais.

Nebraska: dirigido por Alexander Payne (Os Descendentes), o longa conta a história de Woody Grant, um velhinho que “precisa” viajar até o estado que dá nome ao filme para receber um prêmio que acredita ter recebido, mas que não passa de uma propaganda enganosa. Com o intuito de aproveitar o milhão do prêmio na compra de uma caminhonete, um compressor, e deixar o restante para a família, Woody tenta ser convencido, sem sucesso, por um dos filhos e a esposa. Essa viagem, no entanto, fará com que essa família volte a se reaproximar, e dará uma segunda chance para que Woody tente deixar coisas boas para a família, já que durante toda sua vida foi um pai meio negligente. Com uma belíssima fotografia em preto e branco, o longa tem como grande destaque as atuações de Bruce Dern, Will Forte e June Squibb. É mais um dos indicados com chances praticamente nulas de vitória nesta categoria, mas nem por isso não merece ser visto e apreciado.

Clube de Compras Dallas: dirigido por Jean-Marc Vallée (A Jovem Rainha Vitória), este filme é um dos destaques do cinema independente dos EUA nos últimos anos. Ele conta a história de Ron Woodroof, um eletricista homofóbico que descobre ser portador do vírus da Aids, justamente em um período onde ainda se sabia pouco sobre a doença e os primeiros remédios destinados a diminuir e retardar os efeitos da doença começavam a ser desenvolvidos. Após descobrir sua doença e ouvir dos médicos que tem pouco tempo de vida, Woodroof começa uma batalha para que possa fazer uso dos coquetéis ainda em fase de testes e passa a traficar remédios do México para portadores do vírus de Dallas, que recebem os medicamentos após se inscreverem no clube de compras fundado por Woodroof. Com ótimas atuações de Matthew McConaughey e Jared Leto, favoritos nas categorias de Ator e Ator Coadjuvante, o filme mostra um importante retrato de um passado relativamente recente e de como uma doença como essas pode mudar o modo de vida das pessoas.

Philomenadirigida por Stephen Frears (A Rainha), essa comédia dramática estrelada pela lenda do teatro e do cinema britânicos Judi Dench conta a história de Philomena Lee, que nos anos 50 fora uma jovem que vivia em um convento e acabou engravidando. Como o filho vivia sob os cuidados das freiras, a prática era de que essas crianças das meninas que viviam no convento fossem vendidas para adoção. Depois de 50 anos, Philomena parte em busca de notícias do filho do qual foi separada contra sua vontade, com a ajuda de um jornalista que pretende contar sua história em uma reportagem. Nessa procura, Philomena e o repórter criam um laço forte de afinidade e protagonizam grandes cenas que caminham entre o drama e a comédia. O grande destaque do filme é justamente Judi Dench, que aqui vive uma senhora dócil e ingênua do interior da Irlanda, ao contrário das mulheres fortes que têm acostumado a viver. Assim como Ela, não tem chances como Melhor Filme, mas é um dos fortes concorrentes em roteiro, desta vez adaptado.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho