Oscar 2014: Previsível, mas “justo”

Um Oscar dentro do que se esperava: previsível, mas “justo”. Assim podemos caracterizar a 86ª cerimônia do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Apresentado mais uma vez por Ellen DeGeneres (que já havia sido host da premiação em 2007), a cerimônia teve seu melhor ritmo em muito, muito tempo. Mais preocupada em transformar a coisa toda numa festa, ao invés de um show de comédia particular, Ellen foi bem sucedida justamente porque trouxe a plateia para brincar com ela, e não apenas para rir de piadas que não funcionam com todo mundo. Nesse sentido, se deu muito melhor que Seth MacFarlane, apresentador do último ano.

A questão é que a Academia, tanto sua direção quanto seus membros, é ultraconservadora, quadrada e certinha demais. E essa busca por conquistar um público mais jovem que a entidade tem feito nos últimos anos não funciona se não houver uma mudança de pensamento desse pessoal. É por isso que quando Seth MacFarlane apresentou a cerimônia, ele não se deu tão bem, pois ainda que arriscasse com piadas um pouco mais fortes, era nítido que foi limitado pela produção do show. E liberdade, ou existe ou não existe. Com Ellen foi um pouco diferente, porque ela é menos dura que Seth, seu estilo de humor é mais “família” e, por consequência, tem a cara do Oscar.

Mas nem por isso ela deixou de arriscar em alguns momentos e logo de cara já intimou os membros votantes da entidade: “duas coisas podem acontecer essa noite: ou 12 Anos de Escravidão vence ou vocês todos são racistas”. E logo emendou “agora vamos chamar ao palco a primeira apresentadora branca da noite, Anne Hathaway”, que foi entregar o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante para Jared Leto, por Clube de Compras Dallas.

Ainda naquela noite, Ellen apareceria várias outras vezes como grande mestre de cerimônias, andando o tempo todo no meio da plateia, perguntando quem estava com fome, porque ela pediria pizza, ou entregando raspadinhas como prêmio de consolação para os derrotados, depois de fato trazendo e distribuindo pizza entre os convidados, com ajuda de Brad Pitt, e arrecadando dinheiro para pagar a conta com o chapéu do cantor Pharrell Williams. Mas, o ponto alto de suas brincadeiras foi quando começou a tirar fotos com os convidados. Foi nesse momento que ela “quebrou o twitter” ao publicar a selfie mais retuitada da história da rede social, que deixou o site instável por alguns minutos.

Vocês não estão enxergando, mas tem 11 estatuetas do Oscar nessa foto

Vocês não estão enxergando, mas tem 11 estatuetas do Oscar nessa foto

Os vencedores da noite

Como já foi dito, a premiação não trouxe nenhuma grande surpresa nesse ano, com todos os favoritismos sendo confirmados nas principais categorias (veja a lista completa de vencedores aqui). E a disputa, dessa vez, ficou polarizada entre Gravidade e 12 Anos de Escravidão. Entre as categorias técnicas, Gravidade reinou absoluto: efeitos visuais, edição e mixagem de som, trilha sonora, fotografia e montagem. Até esse momento, o cenário se desenhava (com ressalvas) para uma vitória do filme de Alfonso Cuarón, que também levou a estatueta de Melhor Diretor, merecidamente. A questão é que cinema é arte, e arte, para além da técnica, também diz respeito a mensagens, ideias e sentimentos. Gravidade também tem tudo isso. Mas talvez não tenha tido o suficiente.

12 Anos de Escravidão, como citei em um texto que escrevi no facebook quando o assisti, é um filme importante. Poucas vezes o cinema mostrou a questão do racismo da forma como foi mostrada no longa de Steve McQueen. Principalmente porque, dessa vez, não houve uma visão brancocentrista dos fatos, nem tampouco o pudor de esconder a violência. E o filme se tornou tão importante nesse sentido que tanto ele quanto o livro original do escravo Solomon Northup serão distribuídos em todas as escolas americanas, para que possam ser estudados.

Muito além de sua qualidade como filme – e isso é incontestável, 12 Anos… é um ótimo filme. Talvez não o melhor do ano, mas é ótimo -, o longa de McQueen precisava vencer para que a Academia minimizasse, pelo menos um pouco, o estigma racista que a cerca. E sim, a Academia é racista, machista e androcêntrica, homofóbica, xenofóbica e moralista, não duvide disso. E tudo isso é um retrato da própria indústria e do mercado de cinema americanos. E que melhor hora para premiar um longa com essa temática do que num ano em que um filme sobre isso de fato se destaca também pela sua qualidade?

A única questão é que, ao mesmo tempo, parece que a Academia, mais uma vez, teve medo premiar um longa de ficção científica como Gravidade. 12 Anos… venceu apenas duas outras estatuetas além de Melhor Filme, Roteiro Adaptado e Atriz Coadjuvante. Enquanto que Gravidade parece ter sido um filme muito mais completo, tendo vencido prêmios técnicos importantes, como Montagem e Fotografia, além de Direção.

Pela lógica da distribuição dos prêmios, a própria Academia parece ter achado, indiretamente, Gravidade o filme mais completo do ano. Mas e a coragem de premiar uma ficção científica (um subgênero considerado menor) em detrimento de um longa histórico sobre o racismo? De fato, era mais fácil dividir um pouco dos prêmios e fugir de maiores polêmicas. E, de quebra, por tabela, dar a Brad Pitt seu primeiro Oscar na carreira, como produtor.

Entre as atuações, três dos quatro vencedores concorriam pela primeira vez ao prêmio, Matthew McConaughey (Melhor Ator por Clube de Compras Dallas), Jared Leto (Ator Coadjuvante pelo mesmo filme) e Lupita Nyong’o (Atriz Coadjuvante por 12 Anos…), também estreante no cinema e que agora parece uma ameaça ao reinado de Jennifer Lawrence como a mais querida de Hollywood. Cate Blanchett, a papa prêmios da temporada, venceu como Melhor Atriz por Blue Jasmine, seu segundo Oscar conquistado. O primeiro foi como coadjuvante em O Aviador.

Se destacam ainda a animação Frozen: Uma Aventura Congelante, confirmando o favoritismo e vencendo, entre outras animações, o último filme do mestre Hayao Miyazaki, Vidas ao Vento; o longa estrangeiro A Grande Beleza, uma homenagem ao cinema italiano e a Fellini disfarçada de crítica à classe média italiana; e o ótimo documentário A Um Passo do Estrelato, uma homenagem aos backing vocals, que parece ter se favorecido justamente por ser o mais leve e menos polêmico entre os indicados.

Os perdedores

O grande derrotado da noite foi Trapaça, indicado a dez estatuetas e sem nenhuma vitória. Até Babe: O Porquinho Atrapalhado possui uma estatueta e Trapaça não! (hehe) Brincadeiras à parte, a última vez que isso aconteceu foi em 2011, quando Bravura Indômita, dos irmãos Coen, também esteve presente em dez categorias, sem converter qualquer uma delas em prêmio.

A questão é que Trapaça não é o grande filme que o número de indicações faz parecer. Também não é ruim, mas não extrapola o mediano em nada. Tanto é que em nenhuma das dez categorias para as quais estava indicado era o favorito. Sem contar que é uma cópia barata de um estilo Martin Scorsese de cinema. Isso, com certeza, contou contra o filme.

Mais uma vez, Leonardo DiCaprio ficou a ver navios e não levou a tão esperada (por todos) estatueta. Foi a quarta indicação de um dos maiores atores de sua geração, poucas se comparadas ao seu talento, mas o suficiente para ter vencido em pelo menos uma delas, mas nunca aconteceu. E esse também parece ser o destino de Amy Adams, cinco vezes indicada sem nenhuma vitória. E olha que ela era a melhor coisa de Trapaça, hein?

Pouco conhecido perto das celebridades todas é o ótimo fotógrafo Roger Deakins, que acabou indicado pela 11ª vez ao Oscar e nunca venceu. Nesse ano, indicado pela fotografia de Os Suspeitos, foi derrotado por Emmanuel Lubezki (Gravidade), que quebrou um jejum ao vencer pela primeira vez em sua sexta indicação. Quem não conseguiu o mesmo feito foi a figurinista Patricia Norris, indicada pela sexta vez (sendo a primeira em 1979, por Cinzas no Paraíso), desta vez por 12 Anos de Escravidão, que também saiu da cerimônia sem receber sua primeira estatueta.

O excelente compositor Alexandre Desplat também não conseguiu sua primeira estatueta e amargou pela sexta vez a derrota, dessa vez pela trilha de Philomena. Mas, olhando de perto, sua situação não é das piores, já que concorreu também com Thomas Newman, com 12 indicações, que… também não venceu! É, amigos, a coisa não é fácil pra alguns.

As apresentações musicais

Nesse ano, o Oscar contou com apresentações para todas as quatro canções indicadas. Karen O., da banda Yeah Yeah Yeahs, cantou ao lado de Ezra Koenig, do Vampire Weekend, sua canção “The Moon Song”, do filme Ela. A banda irlandesa U2, indicada pela segunda vez ao Oscar, tocou “Ordinary Love”, de Mandela: A Long Walk to Freedom.

Mas os grandes destaques acabaram sendo as duas outras canções. Idina Menzel repetiu a performance da animação Frozen e cantou “Let it Go”, a vencedora da estatueta, embora tenha desafinado na apresentação. E em um dos momentos mais divertidos da premiação, Pharrell Williams cantou “Happy”, de Meu Malvado Favorito 2, quando desceu na plateia para dançar com as celebridades.

Pharrell and Meryl Streep

As homenagens

A bola fora do Oscar esse ano foi justamente o tema escolhido pela cerimônia: heróis. Ninguém parece ter dado a mínima para as intervenções lembrando os heróis do dia a dia, os super-heróis ou os heróis da animação. Mas a cerimônia teve outras homenagens que conquistaram mais o público.

Como já é de costume, todo ano a Academia prepara um vídeo In Memoriam, com imagens dos profissionais do cinema que faleceram nos últimos 12 meses. Neste ano, além de nomes bastante populares no cinema americano, como Paul Walker, Peter O’Toole, Shirley Temple e James Gandolfini, tivemos a presença do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, assassinado a facadas pelo próprio filho no início desse ano, curiosamente, no mesmo dia da morte por overdose de Philip Seymour Hoffman, que encerrou o vídeo de homenagem.

Uma pena não terem incluído de última hora o cineasta Alain Resnais, que morreu no último sábado, aos 91 anos, na véspera do Oscar. A homenagem foi encerrada com a apresentação da atriz Bette Midler, cantando “Wind Beneath My Wings”.

Durante a apresentação dos indicados ao prêmio de Melhor Fotografia, realizada por Amy Adams e Bill Murray, este decidiu se lembrar do grande amigo e parceiro de Feitiço do Tempo e Caça-Fantasmas, Harold Ramis, ator, diretor e roteirista. Sem dúvida, uma das maiores perdas do cinema nos últimos tempos. A quebra de protocolo do ator foi aplaudida com bastante entusiasmo por todos. Bill Murray reina!

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A cerimônia ainda contou com uma homenagem ao clássico O Mágico de Oz, que comemora 75 anos de lançamento. No palco, com um vestido no mesmo tom dos famosos sapatinhos de Dorothy, P!nk cantou o clássico “Over the Rainbow”, eternizado na voz de Judy Garland. Na plateia, Liza Minnelli e os irmãos, filhos de Judy, representaram a homenageada.

Os Oscars honorários desse ano foram entregues para o figurinista Piero Tosi, lembrado principalmente pelo seu trabalho com o cineasta Luchino Visconti, para a atriz britânica Angela Lansbury, por sua contribuição ao cinema ao longo de seus 75 anos, e para o comediante Steve Martin, por sua contribuição para a comédia, tanto como ator quanto como músico e compositor.

O prêmio humanitário Jean Hersholt foi dado para a atriz Angelina Jolie, reconhecida por seu trabalho humanitário realizado junto a refugiados de guerras civis, além de sua militância em prol do combate à violência sexual. Angelina agora se junta a nomes como Oprah Winfrey, Jerry Lewis, Paul Newman, Audrey Hepburn, Elizabeth Taylor, Charlton Heston e Frank Sinatra, entre outros, que receberam a homenagem desde 1957, quando o prêmio foi criado.

It’s all about people

Não há nada na vida que eu goste mais de fazer do que falar e escrever sobre cinema. Porque, no fundo, independente de mercado, de indústria, de milhões de dólares, de prêmios, de fama, de sucesso, de justiças ou injustiças, é tudo sobre seres humanos. É sobre vítimas da escravidão, da Aids ou da miséria. Ou sobre gente em busca de um novo significado para a própria vida após uma grande perda ou uma separação, ou à procura do filho roubado há 50 anos ou de reconciliação com a família e consigo mesmo, ou sobre desvios éticos e morais desses seres humanos.

No fundo mesmo, toda e qualquer história contada por esses caras, é sobre essa foto abaixo. É sobre ser humano, demasiadamente humano. Seja em condições de busca pela própria sobrevivência, como as retratadas nos filmes indicados (e que continuam a acontecer diariamente em todos os lugares do mundo), ou em busca de uma estatueta dourada, que lhe trará reconhecimento, fama e dinheiro, em uma festa feita por ricos e para ricos. No fundo, é tudo sobre pessoas e sobre como elas são iguais, mesmo em suas maiores diferenças.

O diretor Steve McQueen em êxtase por ver seu filme, 12 Anos de Escravidão, premiado

Feliz 2014, cinéfilos! Porque o ano começa agora!

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho