Oscar 2016: As mulheres brancas da Academia

Dando continuidade ao especial Oscar 2016, que já falou sobre as categorias de Filme Estrangeiro, Animação, Documentário, Ator e Ator Coadjuvante, hoje vamos falar sobre as atuações femininas. Embora tenha sido um bom ano para as atrizes no que diz respeito a bons papéis e atuações, há duas indicações no mínimo duvidosas entre as dez concorrentes a Melhor Atriz e Atriz Coadjuvante: Jennifer Lawrence, por Joy, e Rachel McAdams, por Spotlight: Segredos Revelados, respectivamente.

Mas, no geral, as duas categorias vêm fortes para a premiação, tanto que duas atrizes estão indicadas como coadjuvantes por uma mera formalidade (leia-se “é mais fácil disputar essa categoria”), já que poderiam estar na disputa como protagonistas em seus filmes: Rooney Mara, por Carol, e Alicia Vikander, por A Garota Dinamarquesa. Já na categoria principal, se Cate Blanchett for agraciada com sua terceira estatueta, deve se igualar a Ingrid Bergman e Meryl Streep, e ficar a apenas uma de alcançar a atriz mais oscarizada de todos os tempos, Katharine Hepburn. Mas explico abaixo o porquê isso será muito difícil de acontecer.

Melhor Atriz

Cate Blanchett é uma das maiores atrizes do mundo e não há quem discuta isso. Como não poderia deixar de ser, está ótima em Carol, de Todd Haynes, um dos filmes mais injustiçados da temporada (falaremos sobre isso no post sobre Melhor Filme). No longa, ela interpreta uma mulher que está prestes a se separar do marido e que se apaixona por uma jovem vendedora, interpretada por Rooney Mara. As duas vivem um caso de amor proibido e que acaba custando muito caro para Carol, já que a história se passa nos anos 1950, ainda muito conservadores (bem mais que hoje, podem acreditar). A interpretação de Cate Blanchett é irretocável. Sensível e serena, mas ao mesmo tempo carregada pela angústia de sua personagem. Uma atriz com menos talento e experiência que ela poderia botar tudo a perder e não fazer jus ao excelente trabalho de direção de Todd Haynes. Com certeza, uma atuação digna de Oscar. O problema é que ela encontrou uma jovem adversária à altura nessa disputa e, certamente, no próximo domingo, Cate Blanchett usará toda sua classe e elegância para aplaudi-la quando seu nome for anunciado como a vencedora dessa categoria.

Pela primeira vez indicada, Brie Larson é a maior barbada do Oscar 2016. Nada tira a estatueta de suas mãos. Ela ganhou absolutamente todos os prêmios relevantes (ou não) dessa temporada. Bafta, SAG, Globo de Ouro, National Board of Review, vários prêmios da crítica… enfim, acho que deu pra entender. E não dá pra dizer que todos esses prêmios não sejam mais do que merecidos. Ela está ótima no pequeno notável O Quarto de Jack. Sua química com o menino Jacob Tremblay é uma das melhores entre mãe e filho dos últimos anos e ela se estende para fora das telas. Os dois vivem postando fotos juntos ou dialogando um com o outro nas redes sociais. Assim como Cate Blanchett em Carol, sua atuação se destaca especialmente pela sutileza com que trafega entre os sentimentos e angústias de sua personagem, que foi sequestrada por um homem quando adolescente e passou anos confinada em um quarto, sendo abusada sexualmente, tendo engravidado e tido um filho de seu sequestrador. Brie Larson dá conta de todo esse drama com uma atuação muito sensível. Não é fácil dizer se ela está melhor que Cate Blanchett. Talvez as duas atuações se equiparem, mas pelo retrospecto na temporada de premiações, ela vai deixar Cate de mãos abanando.

Como muita gente costuma brincar, o Oscar parece ter uma “dívida” que não acaba nunca com o Reino Unido, porque todo ano ao menos um filme realizado no país recebe indicações importantes, ainda que sua qualidade seja questionada. Não vou afirmar categoricamente que as indicações relacionadas a filmes britânicos nesse Oscar são injustas, porque não acho que sejam, mas sempre vem a calhar o termo “cota dos ingleses” para descrever algumas das indicações. É o caso da nomeação da veterana Charlotte Rampling que, por tudo o que já fez na carreira, já merecia ter sido reconhecida pela Academia com outras indicações, mas pela primeira vez é lembrada, por seu papel no longa 45 Anos. Particularmente, não sou um grande fã de sua atuação, nem de seu filme. Acho ambos regulares, mas entendo que tenham caído nas graças de alguns dos votantes, talvez até com o perfil dos membros mais velhos da Academia. Mas confesso que peguei birra da atriz depois que ela afirmou que o boicote dos atores negros ao Oscar, em protesto contra da ausência de indicados negros na premiação, seria uma espécie de racismo contra os brancos. E parece que esse tipo de opinião ignorante da Charlotte não é novidade, pois na Europa ela é reconhecida por ser bastante conservadora. Fique com sua indicação e já está de bom tamanho, dona Charlotte. Obrigado.

Ainda na categoria “cota dos ingleses”, apesar de ser uma nova-iorquina descendente de irlandeses, Saoirse (pronuncia-se mais ou menos como Sãrchia) Ronan conseguiu sua segunda indicação ao Oscar pelo longa britânico Brooklyn, a primeira foi por outro filme inglês, Desejo e Reparação. No longa roteirizado pelo renomado escritor Nick Hornby, Saoirse interpreta uma jovem que se muda para os EUA para tentar uma nova vida, mas sofre por deixar a mãe e a irmã na Irlanda e por não se sentir muito adequada logo que chega a Nova York. Aos poucos, ela vai se encontrando na cidade e conhece um rapaz italiano por quem se apaixona, mas fica dividida entre seu amor pelo rapaz e a saudade de casa. Saoirse é uma boa atriz (além de ser dona dos olhos mais bonitos de Hollywood) e sua indicação pelo longa de John Crowley é justa, mas a personagem que interpreta é tão ingênua e inocente que é fácil desgostar. Não que isso chegue a prejudicar sua atuação, porque realmente ela dá conta do recado, mas não é um filme que deve cair no gosto de muita gente e isso poderia atrapalhá-la caso as chances de premiação fossem reais. Ela chegou a faturar alguns prêmios nos círculos de críticos, mas durante a maior parte do tempo ficou assistindo a Brie Larson ganhar os grandes prêmios da temporada. É bastante provável que aconteça o mesmo no domingo.

Para fechar a categoria, a atual namoradinha da América, Jennifer Lawrence, que consegue sua quarta indicação ao Oscar, sendo a terceira por um filme dirigido por David O. Russell. O que ela está fazendo aqui? Ninguém sabe. Ou melhor, sabe. J-Law é carismática, bonita, engraçada, ótima atriz… por que não indicá-la novamente e garantir que muita gente vá assistir à premiação apenas para vê-la? Só isso explica ter sido nomeada pelo fraquíssimo (para não dizer desastroso) Joy. Essa é a única indicação que o filme recebeu e, apesar dela ser a melhor coisa do filme (e isso está muito longe de ser um elogio), nem isso merecia. Pra variar, a atriz parece inadequada para sua personagem, que precisaria de uma intérprete mais velha que os belos 25 anos de Jennifer. O mesmo aconteceu em O Lado Bom da Vida e Trapaça, também dirigidos por David O. Russell e que renderam à atriz indicações ao Oscar, sendo que o primeiro ainda lhe deu a estatueta. Em nenhum dos papéis que interpretou Jennifer Lawrence está mal, mas é visível que ela dá vida a personagens mais velhas e isso tira a verossimilhança das histórias e de sua própria atuação. Se quiser se manter como uma das atrizes mais queridas do cinema atual, ela precisa urgentemente dar uma pausa nessa parceria com David O. Russell, porque eles não vão conseguir enganar a todos por muito mais tempo.

Atriz Coadjuvante

Essa categoria tem uma particularidade curiosa esse ano: duas das atrizes indicadas poderiam (deveriam?) facilmente concorrer ao Oscar de Melhor Atriz, mas foram inscritas pelos estúdios nessa categoria porque teriam mais chances de serem premiadas do que na de atuação principal. Rooney Mara, por Carol, e Alicia Vikander, por A Garota Dinamarquesa, dividem com seus parceiros de cena o protagonismo em seus filmes. Diria mais, talvez ambas sejam ainda mais protagonistas (se é que dá pra classificar assim) que Cate Blanchett e Eddie Redmayne.

Rooney Mara começou a temporada como uma das favoritas ao Oscar, depois de ter faturado o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, dividindo o prêmio com Emmanuelle Bercot, de Mon Roi. Mas, ao longo dos meses, a atriz que acaba de receber sua segunda indicação ao Oscar (a primeira foi por Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres), foi perdendo força na disputa, apesar de ainda ter conquistado alguns prêmios em festivais e em escolhas dos críticos. De toda forma, sua atuação no longa de Todd Haynes é admirável. Caso saia com a estatueta no domingo, embora não seja mais a favorita, o Oscar estará em boas mãos.

Efeito contrário teve a sueca Alicia Vikander, que despontou como revelação esse ano por suas atuações em Ex-Machina: Instinto Artificial, que chegou a ser cotado como o filme que poderia lhe render uma indicação ao Oscar, e o novo longa de Tom Hooper, A Garota Dinamarquesa, trabalho que de fato lhe deu a nomeação. A atriz venceu o prêmio do Sindicato dos Atores de Hollywood e chega à semana do Oscar como a favorita na categoria. No entanto, é sempre bom lembrar: não é raro o Oscar surpreender em alguma das principais categorias e premiar alguém que não era favorito. E como já vimos anteriormente, tanto nas atuações masculinas (Leonardo DiCaprio e Sylvester Stallone) quanto em Melhor Atriz, com Brie Larson, os prêmios já parecem definidos. Será que Vikander tem chances de perder? Se sim, pode ser para…

Kate Winslet? Se há alguma atriz que pode ser chamada de “nova Meryl Streep”, é ela. Tudo bem, a Cate Blanchett também é chamada assim de vez em quando, e inclusive possui o mesmo número de indicações ao Oscar (com uma estatueta a mais) que sua quase xará, mas Kate Winslet é amor, é musa, é rainha, as outras nadinha uma das grandes queridinhas de Hollywood. E desde 2009, quando venceu o Oscar de Melhor Atriz por O Leitor, ela não recebia uma indicação. Sua atuação em Steve Jobs vem recebendo bastantes elogios e seu nome vem sendo cada vez mais citado nas últimas semanas. Recentemente, ela foi premiada por sua atuação no Globo de Ouro e no Bafta, o Oscar britânico, e mesmo ambos os prêmios não serem grandes termômetros para o Oscar, ao menos ajudam na campanha de marketing e faz com que seus vencedores continuem sendo citados justamente no período em que os votos do Oscar são fechados. Será que chegou a vez da britânica especialista em sotaques ganhar seu segundo Oscar?

Se essa categoria pudesse ser chamada “Melhor Atriz Coadjuvante que foi Coadjuvante de Verdade e Roubou a Cena Todas as Vezes em que Apareceu”, esse Oscar já era de Jennifer Jason Leigh. Resgatada sabe-se lá de onde por Quentin Tarantino (como ele sempre faz em seus filmes), ela basicamente é o grande destaque de Os Oito Odiados, mesmo com um elenco que conta com Samuel L. Jackson, Bruce Dern e Kurt Russell. Isso não é pouca coisa. Em todas as suas cenas, ela nos deixa hipnotizado com uma atuação forte e hilária. O mais curioso é que antes de Jennifer ser contratada para o papel, várias outras atrizes foram cotadas para sua personagem, como Michelle Williams, Robin Wright, Geena Davis, Evan Rachel Wood, Hilary Swank, Demi Moore e até, dizem alguns rumores, Jennifer Lawrence! Mas depois de assistir ao filme, fica difícil conseguir enxergar alguém que se encaixasse tão bem em sua personagem. Logo que Os Oito Odiados foi lançado, Jennifer esteve bem cotada ao Oscar, e chegou a vencer o National Board of Review nessa categoria, mas sua campanha foi esfriando e hoje só não está mais fraca que a última das indicadas, Rachel McAdams.

Precisamos falar sobre Rachel McAdams, Academia. O que raios ela está fazendo aqui? Tudo bem, ela é uma atriz muito boa, é linda, é a cara do “Oscar branco”, mas não vamos exagerar. Sua atuação em Spotlight: Segredos Revelados não tem nada de marcante. Também não prejudica em nada, é justo dizer. Mas até por isso chega a ser ridícula sua indicação, já que ela estar ali ou não estar dá praticamente no mesmo. O papel é pequeno, desinteressante, morno, água com açúcar, sem sal, não fede nem cheira… tá, parei! Mas sua vaga estaria muito melhor preenchida por outras atrizes. Kristen Stewart, por Acima das Nuvens, Helen Mirren, por Trumbo, Alicia Vikander, por Ex-Machina, Joan Allen, por O Quarto de Jack… todas mereciam bem mais que ela. E se for para considerar apenas a qualidade das interpretações, até a Camila Márdila, de Que Horas Ela Volta?, está muito melhor que ela. Mas se tudo der certo, não será aqui que teremos uma surpresa e Rachel McAdams vai estar lá apenas para fazer figuração (como fez em seu filme, risos), porque merecer mesmo, não merece.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho