Oscar 2016: Os Oito Adorados

Finalmente, chegamos à categoria principal do maior prêmio do cinema mundial, o Oscar. O amado e odiado prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood que, anos após ano, não se cansa de nos surpreender. Em geral, negativamente. Este ano, o prêmio ficou marcado mais uma vez pela polêmica da falta de representatividade (que nada mais é que um reflexo da própria indústria), especialmente na questão racial, já que todos os 20 indicados aos prêmios de atuação, assim como no ano passado, são brancos. Oscar, miga, assim fica difícil te defender. Isso fez com que vários atores negros afirmassem que irão boicotar a premiação que acontece neste domingo (28), como Spike Lee, Jada Pinkett Smith e seu marido, Will Smith, que chegou a ser cotado ao Oscar de Melhor Ator, mas não entrou.

Além disso, a Academia custa a renovar seu “pensamento” e acaba indicando muitas vezes filmes, atores, atrizes e diretores que geralmente se sustentam muito mais pela fama e pelo prestígio entre os votantes do que pelo trabalho que realizaram durante o ano. Ao mesmo tempo, isso faz com que vários outros filmes e possíveis indicados em outras categorias acabem de fora da disputa. No caso desta categoria em específico, como ela pode indicar de cinco a dez longas-metragens, e neste ano acabou ficando com apenas oito indicados, é fácil apontar trabalhos que acabaram esnobados e que facilmente poderiam estrar entre os indicados, alguns até em substituição a outros, como é o caso de Carol, de Todd Haynes, Os Oito Odiados, de Quentin Tarantino, Straight Outta Compton: A História do N.W.A., de F. Gary Gray, ou até mesmo longas que acabaram indicados em outras categorias de filmes, como Divertida Mente e O Filho de Saul, favoritos em Animação e Filme Estrangeiro, respectivamente.

Depois de toda essa polêmica envolvendo a falta de representatividade, que também inclui todas as outras chamadas minorias (termo que não necessariamente corresponde ao número em si, mas em sua importância em representação), como as mulheres, homossexuais, transexuais, negros, asiáticos, africanos e afrodescendentes em geral, latinos, indígenas e por aí vai… a Academia já apontou que fará alterações em seu corpo de votantes, para que a discrepância de representação seja diminuída. É preciso ressaltar que hoje, a maior parte dos pouco mais de 6 mil votantes da instituição é composta por homens brancos acima dos 60 anos. Uma alteração no corpo de votantes pode fazer com que nos próximos anos o prêmio passe a indicar candidatos mais variados do que costumamos ver nos últimos 88 anos de Oscar. Vamos torcer por isso.

Agora, sem mais delongas, confira abaixo os oito indicados ao prêmio de Melhor Filme, num dos anos mais concorridos que o Oscar já viu, com pelo menos três filmes com chances reais de vitória (A Grande Aposta, Spotlight e O Regresso), mais outros dois correndo por fora (Mad Max e O Quarto de Jack). E aí, quem você acha que vence e por quem você arriscaria colocar a mão no fogo?

O Quarto de Jack

Lenny Abrahamson tinha uma tarefa difícil: adaptar para o cinema o livro Quarto, de Emma Donoghue, que conta a polêmica história da jovem Joy, que ao lado de seu filho de Jack, de apenas cinco anos, vive num quarto de, aproximadamente, 10 metros quadrados. Toda concepção de mundo do menino é reduzida a este minúsculo espaço e revelar o motivo pelo qual os dois se encontram reclusos seria tirar o prazer de quem não conhece a história. Vale dizer apenas que as circunstâncias são cruéis e claustrofóbicas e tudo fica ainda pior à medida que o pequeno começa a questionar a sua condição. Fato é que o diretor irlandês cumpriu com louvor a missão. O seu primeiro acerto foi na escolha da dupla central, interpretada por Brie Larson, atriz conhecida no circuito independente, e o adorável menino Jacob Tremblay. Ela parte como favorita absoluta na categoria de Atriz, mas a Academia ficou devendo uma indicação para o pequeno Tremblay. Com um roteiro redondo, adaptado pela própria autora do livro, O Quarto de Jack é eficiente e emocionante ao retratar as relações familiares e chega forte à categoria mais importante do Oscar. Há quem diga, inclusive, que o filme pode se beneficiar da pulverização dos votos entre os favoritos O Regresso, A Grande Aposta e Spotlight: Segredos Revelados e arrebatar a estatueta de Melhor Filme. Será? (Cristiano Filiciano)

Perdido em Marte

O mais recente longa de Ridley Scott destoa um pouco daquilo que estamos acostumados a esperar de um filme seu, algo mais sombrio e/ou épico/dramático, como Alien, Blade Runner, Gladiador e Êxodo. Aqui, ele claramente dá uma aliviada na tensão com uma comédia dramática em que o personagem de Matt Damon acaba abandonado em Marte pela equipe de astronautas liderada por Jessica Chastain. Durante as quase 2h30 de filme, vemos a tentativa de sobrevivência desse astronauta no planeta vermelho, mas sem que ele perca o bom humor, já que praticamente se considera morto ali, porque dificilmente voltariam para resgatá-lo a tempo, pois seus suprimentos não durariam até chegada do socorro, se ele viesse. Para se garantir vivo nessa jornada, Mark (Damon) lança mão de seus conhecimentos como biólogo para cultivar batatas e “colonizar” Marte, mas ao longo do filme vemos que sua aventura não será das mais fáceis. Durante bastante tempo, especulou-se que Ridley Scott seria lembrado na categoria de direção por esse filme e que ele poderia ser o grande favorito, já que até hoje não recebeu nenhuma estatueta, embora tenha sido indicado em três oportunidades. Seria uma forma de premiá-lo pelo conjunto de sua obra. Mas a Academia parece não ter comprado muito essa ideia e mais uma vez deu uma esnobada bonita no britânico. Mesmo assim, seu filme conseguiu emplacar sete indicações, entre elas Melhor Ator para Matt Damon, Melhor Roteiro Adaptado e, claro, Melhor Filme. Resta saber se conseguirá vencer em alguma delas, já que a concorrência em todas é muito forte. O que se sabe é que chances mesmo como Melhor Filme, apesar de por um curto período ter sido considerado um dos mais fortes concorrentes, ele já não tem há bastante tempo. (Carlos Carvalho)

Brooklyn

No início dos anos 1990, o escritor inglês Nick Hornby chacoalhou o universo da cultura pop com os livros Febre de Bola, Alta Fidelidade e O Grande Garoto, cujos enredos giravam em torno das inquietações dos protagonistas masculinos da classe média britânica. Na década seguinte, Hornby se especializou em transpor para os cinemas livros famosos de outros autores que ambientavam o universo feminino, como os longas Educação, Livre e, no ano passado, Brooklyn. Esta mudança de foco foi tão positiva que as três protagonistas dessas produções, Carey Mulligan, Reese Whitherspoon e Saoirse Ronan foram indicadas ao Oscar de Melhor Atriz. Em Brooklyn, de John Crowley, Saoirse interpreta Eillis, uma jovem que em meados de 1950 parte de uma pequena cidade irlandesa para tentar a sorte no famoso bairro de Nova York que dá nome ao longa. A dura rotina de adaptação da jovem na América ganha força a partir do momento em que ela engata um romance com o italiano Toni, interpretado pelo carismático Emory Cohen. Apoiado no delicado roteiro de Hornby, também lembrado pela Academia, Brooklyn retrata o desenvolvimento desta jovem imigrante com delicadeza e não deixa a narrativa descambar para o melodrama barato. Já a inteligente utilização dos figurinos, apresentados basicamente nas cores verdes e vermelhas, reflete o processo de maturidade e de autoconhecimento da protagonista, mas é mesmo a atuação leve e emocionante de Saoirse Ronan que faz Brooklyn digno de figurar na principal categoria do Oscar. (Cristiano Filiciano)

A Grande Aposta

Conhecido por ser um diretor de filmes de comédia, principalmente com o Will Ferrell, Adam McKay assumiu a responsabilidade de falar sobre um tema tão complexo, a crise financeira dos EUA de 2008, que talvez a melhor maneira de explicá-lo de verdade fosse fazendo piada. A Grande Aposta é um filme que mistura com bastante competência o drama e o humor e o faz isso de maneira tão gritante que é difícil não se empolgar ao assisti-lo. Suas inserções de humor com cenas totalmente fora do tom da maior parte do filme para tentar explicar a complexidade de alguns termos relacionados ao mercado financeiro, são o diferencial desse longa marcado pelo drama real que os americanos viveram e que ainda colhem frutos dessa dança macabra dos números que levou tanta gente à falência. E pior, gente comum, não uma minoria de grandes empresários. O longa tem um elenco de peso, com Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling e Brad Pitt. Todos com boas performances e sem que soassem exageradas, como foi o caso de Mark Ruffalo, por exemplo, em Spotlight. Mesmo assim, apenas Christian Bale conseguiu uma indicação como Ator Coadjuvante, ao passo que Spotlight ainda emplacou uma de Melhor Atriz Coadjuvante com Rachel McAdams. Vencedor do prêmio do Sindicato dos Produtores, considerado um dos maiores termômetros do Oscar, A Grande Aposta chega como um dos favoritos a faturar a estatueta, embora nas últimas semanas a campanha para O Regresso tenha lhe tirado a liderança. Caso saia no domingo como o grande vencedor da noite, será um prêmio justo, especialmente porque é um longa bem realizado e equilibrado em várias camadas, tanto nas questões artísticas quanto nas mais técnicas, com destaque para a montagem, que dá todo o dinamismo para que o filme não se torne cansativo apesar de seu tema. (Carlos Carvalho)

Ponte dos Espiões

A nova produção do cineasta Steven Spielberg, Ponte dos Espiões, nos apresenta a jornada de James Donovan, interpretado por Tom Hanks, um pacato advogado de seguros que recebe a difícil missão de defender um espião russo (o talentoso inglês Mark Rylance) capturado pelas autoridades americanas. Ambientado em pleno auge da Guerra Fria, o filme é eficiente em transpor para as telas o clima de paranoia e de extrema vigilância deste período tão conturbado. Para quebrar o tom solene, Spielberg convidou os conceituados Irmãos Coen para dar aquela refinada no roteiro de Matt Charman. As principais interferências da dupla podem ser vistas nos momentos cômicos do texto e nas tiradas da maioria dos diálogos entre Hanks e Rylance. O ator britânico, por sinal, rouba todas as cenas em que aparece e é uma ameaça real à provável estatueta de coadjuvante de Sylvester Stallone. Já Ponte dos Espiões só não é melhor porque Spielberg mais uma vez não consegue segurar a dose de sacarina e em alguns momentos deixa o domínio técnico de lado para provocar o choro fácil do público. (Cristiano Filiciano)

O Regresso

Atualmente considerado o grande favorito nessa categoria, o longa de Alejandro G. Iñárritu conta a história de sobrevivência de um homem, abandonado à própria sorte após sofrer um ataque brutal de um urso, e sua vingança contra aquele que o deixou para trás. Sim, optei pela sinopse mais simples possível para demonstrar que O Regresso não é um longa que se sustenta por sua história. Mas isso não é nenhum demérito, embora o mesmo tenha acontecido com Mad Max, que sofreu algumas duras críticas por “não contar história alguma”. O longa de Iñárritu é um esforço técnico de seu fotógrafo Emmanuel Lubezki e de seu protagonista, Leonardo DiCaprio, que devem sair vitoriosos no domingo em suas categorias, mas será que o longa do mexicano é muito mais do que isso a ponto de faturar Direção e Filme, como assumiu o favoritismo nessas categorias recentemente?

Oscar é campanha, a gente sabe, e é justamente essa campanha que pode fazer a diferença nessa reta final, porque O Regresso praticamente massacrou seus concorrentes nesse quesito. Mas o que deixa de verdade um gosto amargo nisso tudo é porque essa campanha é toda baseada nas dificuldades técnicas que o longa enfrentou para ser realizado. Suas locações precisavam ser mudadas a todo o tempo, porque a neve derretia rapidamente, as temperaturas atingiam níveis negativos absurdos, o tempo de filmagem por dia era curtíssimo, já que ele foi filmado totalmente com luz natural. Mas ora, dificuldades técnicas Mad Max também sofreu e nem por isso o longa de George Miller tem baseado sua campanha apenas nelas. E para a obra de arte em si, não importa se ela foi simples ou complexa de ser realizada, mas o resultado final. E sim, O Regresso é um bom filme e poderia se sustentar por suas qualidades enquanto obra realizada, não apenas lembrada por seu processo criativo problemático. Tudo isso, somado ao fato de que, nos últimos anos, Iñárritu se tornou uma persona extremamente arrogante (talvez já fosse antes, mas nunca foi tão explícito publicamente), faz com que seja difícil torcer por uma vitória sua ou de seu filme. Talento para tanto, ele tem, mas anda abusando da boa vontade e da paciência de muita gente. Menos Iñárritu, menos. (Carlos Carvalho)

Spotlight: Segredos Revelados

Apontado como um dos favoritos à estatueta principal da Academia desde o início da temporada de premiação, o drama Spotlight: Segredos Revelados apoia-se num roteiro eficiente para dar vida a uma equipe de jornalismo investigativo que se debruçou, por longos meses, na apuração de alguns casos de pedofilia envolvendo membros da igreja católica. Com uma direção discreta, até demais para o Oscar, o diretor Tom MaCarthy dá espaço para seu elenco afiado brilhar. As melhores interpretações são de Michael Keaton e Liev Schreiber, mas a Academia se encantou mesmo com os desempenhos de Mark Ruffalo e Rachel McAdams. Devido a este tema polêmico e verídico e, principalmente, por se aprofundar nos meandros do jornalismo, Spotlight logo foi comparado ao grande clássico Todos os Homens do Presidente. Claro que não é para tanto, mas trata-se de um dos grandes filmes do ano e não será nenhuma injustiça se for reconhecido pela Academia. (Cristiano Filiciano)

Mad Max: Estrada da Fúria

O longa dirigido pelo veterano George Miller é uma sequência/reboot da clássica trilogia criada pelo cineasta australiano e que revelou ao mundo ninguém menos que Mel Gibson. Por muito tempo, como costuma fazer em todos os seus trabalhos, Miller ficou debruçado sobre essa sequência e ao mesmo tempo em que a desenvolvia no papel, sofria com a falta de recursos para realizar seu épico pós-apocalíptico da maneira que queria. O projeto teve seus primeiros rumores no início dos anos 2000 e já ali pairava a dúvida se Mel Gibson voltaria a repetir o personagem Max Rockatansky, por conta de sua idade. Passada quase uma década desde que o projeto foi anunciado, Tom Hardy assumiu o posto como Max e, ao seu lado, haveria uma personagem mulher com bastante importância na trama, vivida por Charlize Theron. E isso era basicamente tudo o que se sabia sobre o projeto, que começou a ser filmado em 2011, em Broken Hill, na Austrália. Mas as filmagens tiveram que ser interrompidas simplesmente porque choveu tanto no deserto que ele virou um imenso oásis. (Essa dificuldade de produção está boa pra você, Iñárritu?). Com as filmagens transferidas para a Namíbia, George Miller pôde, finalmente, começar a rodar o longa que gestou por tantos anos. E não foi um tempo em vão.

Ao assistir ao longa, fica claro que esse período foi importante para que ele pudesse se preparar para todas as dificuldades técnicas que o filme iria lhe impor, principalmente porque fez questão de usar o máximo de efeitos especiais práticos, à moda antiga, em detrimento da quase total digitalização que temos visto no cinema contemporâneo. Com um roteiro simples, mas bastante objetivo, Mad Max: Estrada da Fúria tem uma narrativa calcada na imagem e em suas sequências de ação e perseguição. O filme é um espetáculo visual para deixar qualquer um boquiaberto e sua ação turbinada eleva a adrenalina do público e o faz ficar pregado na cadeira por praticamente uma hora inteira sem descanso, até que depois de um período de respiro, tudo recomece, de forma ainda mais empolgante.

Mas o filme vai além da simples aventura e ação, porque não é uma história de Max, mas de Furiosa (Charlize Theron), que tenta fugir de seu algoz e levar consigo várias mulheres que ele mantinha como escravas sexuais, libertando-as das mãos desse “ditador da água” chamado Geraldo Alckmin Immortan Joe. Para além do jogo de gato e rato, de coiote x Papa-Léguas, há uma camada de simbólica de empoderamento feminino, sem soar panfletário, que faz de Mad Max um filme de ação como não costumamos ver a todo momento. Seria ótimo se George Miller e seu filme fossem reconhecidos pela Academia, mas não por ser um filme “feminista”, porque a ideia não é essa, nem por ser uma mera exceção entre os filmes de ação, tampouco por ser um espetáculo visual ou porque seria como uma compensação por tudo o que o Miller fez e nunca foi reconhecido. Seria ótimo se Mad Max fosse reconhecido pela Academia por tudo isso, mas principalmente porque é um dos melhores, senão o melhor, filme do ano. (Carlos Carvalho)
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