Oscar 2016: Quatro cineastas e um Iñárritu

Nosso especial do Oscar 2016, que já falou sobre as categorias de animação, documentário, filmes estrangeiros, atores e atrizes, traz agora o segundo prêmio mais importante da cerimônia do Oscar: a categoria de Melhor Diretor. O prêmio de direção é entregue desde 1929 – ano em que foi dividido em Melhor Diretor de Drama, concedido a Frank Borzage, por Sétimo Céu, e Melhor Diretor de Comédia, para Lewis Milestone.

Nas décadas seguintes, renomados cineastas foram reconhecidos por aqui, como John Ford, recordista absoluto com quatro troféus, Elia Kazan, Francis Ford Coppola, Woody Allen, Martin Scorsese … Mas grandes mestres do cinema morreram sem um Oscar de Direção nas mãos, entre eles, Stanley Kubrick, Charles Chaplin, Robert Altman, Sidney Lumet e Alfred Hitchcock. Fato que fica ainda mais irritante ao lembrarmos que Tom Hooper será eternamente lembrado como um diretor premiado pela Academia.

Neste ano, a lista de indicados traz cineastas de quatro nacionalidades diferentes: o irlandês Lenny Abrahamson, os americanos Tom McCarthy e Adam McCay, o australiano George Miller e o mexicano Alejandro G. Iñárritu, vencedor da categoria no ano passado. Se levar o prêmio novamente, Iñárritu vai se igualar a John Ford e Joseph L. Mankiewicz como os únicos cineastas a faturar o Oscar de direção em anos consecutivos.

Apesar desta aparente globalização da Academia, todos os filmes pelos quais os diretores deste ano estão indicados são falados em inglês. Esta hegemonia da língua anglo-saxônica poderia ser quebrada com a inclusão do cineasta húngaro László Nemes, que realizou um trabalho notável em O Filho de Saul, mas foi lembrado apenas na categoria de Filme Estrangeiro. Mas aí seria querer demais dos velhinhos do Oscar.

Outros diretores esnobados do ano foram os cineastas Todd Haynes, responsável por Carol – um dos filmes mais belos do ano; Steven Spielberg, que quase conseguiu controlar o pieguismo habitual em Ponte dos Espiões, e o inglês Ridley Scott, que apesar de ser apontado no inicio da temporada de premiação como o favorito a levar a estatueta por Perdido em Marte, ficou de fora da lista final da Academia. Tudo indica que a vaga, inicialmente reservada a Scott, tenha sido ocupada por Lenny Abrahamson, por O Quarto de Jack.

No longa, o cineasta irlandês traz uma nova roupagem para o relacionamento entre mãe e filho, por meio de uma direção de atores firme e técnicas de câmeras surpreendentes para ambientar quase toda a história num espaço delimitado a, aproximadamente, 10 metros quadrados. Apesar de longa apresentar o clímax no meio da projeção, o diretor consegue manter a atenção do público até o fim e nos faz sofrer e sentir claustrofobia ao lado dos personagens de Brie Larson, favorita na categoria de Atriz, e Jacob Trembley. Abrahamson já tinha demonstrado a mesma sensibilidade e ousadia em 2014 em seu longa de estreia, Frank, no qual o protagonista, interpretado pelo alemão Michael Fassbender, passa quase toda a projeção com o rosto escondido por uma cabeça falsa de papel marche. Tudo indica que o irlandês não deve levar a estatueta neste ano, mas demonstra talento suficiente para acreditarmos que outras oportunidades virão.

Já Tom McCarthy não se contentou em ser um discreto e, praticamente, invisível ator em produções como Teoria da Conspiração, Entrando Numa Fria e O Guru do Sexo e foi tentar a sorte por de trás das câmeras. Logo na sua estreia na direção, em 2003, com o drama independente o Agente da Estação, ele demonstrou sensibilidade para desenvolver uma história que dá voz às minorias sociais americanas, trazendo, inclusive, um anão como protagonista – se você pensou em Peter Dinklage de Game of Thrones, fique sabendo que acertou. Esta visão intimista prosseguiu nos filmes seguintes O Visitante, pelo qual Richard Jenkins foi indicado ao Oscar de Ator, e Ganhar ou Ganhar – A Vida é um Jogo, com Paul Giamatti. A primeira derrapada como diretor surgiu em 2014 com a bobagem Trocando os Pés, com Adam Sandler, mas sua recuperação viria em grande estilo um ano depois com o drama jornalístico Spotlight-Segredos Revelados. Com um elenco afiado e roteiro e montagem precisos e sem firulas, Spotlight resgata o bom jornalismo investigativo e desvenda, sem pressa, escabrosos casos de pedofilia na igreja católica. Apesar de ter sido apontado como um dos favoritos no início da temporada de premiação, provavelmente, McCarthy deve perder a estatueta de direção, mas a careca dourada de Roteiro Original já está praticamente em suas mãos.

Assim como seu compatriota McCarthy, Adam Mckay deve se contentar apenas com o Oscar de Roteiro (Adaptado) pelo ótimo longa A Grande Aposta. Com atuação discreta ao longo da temporada de premiação, o filme foi ganhando força na reta final, o que culminou com o prêmio do Sindicato dos Produtores, uma das principais prévias do Oscar. Este reconhecimento é mérito da direção ousada e segura de Mckay, que não se intimidou com a história triste e de peso que tinha em mãos e destrinchou os bastidores do colapso imobiliário americano, que culminou na crise de 2008. Para facilitar na compreensão dos termos técnicos, o diretor optou por uma montagem experta e a inserção de algumas personalidades, como Selena Gomes, explicando passagens importantes para ajudar o público a não se perder no arsenal de informação. Um feito e tanto para um diretor de comédias histéricas, como O Âncora e Quase Irmãos.

Por falar em histeria, o mexicano Alejandro G.Iñárritu saiu da última cerimônia da Academia com três prêmios em mãos: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original pela comédia Birdman – A Inesperada Virtude da Ignorância, aplicando na reta final do prêmio uma rasteira em Richard Linklater. O que ninguém esperava era que ele retornasse com grandes chances de conquistar o bicampeonato nessas duas primeiras categorias na cerimônia deste ano, com o drama de vingança O Regresso, pelo qual faturou alguns dos principais prêmios de direção da temporada: Globo de Ouro, Sindicato dos Produtores e o Bafta, demonstrando que, com apenas seis filmes no currículo, já deixou Hollywood aos seus pés. Não dá para negar que Iñárritu é um bom diretor, longas como Amores Brutos e 21 Gramas estão aí para comprovar a competência do cineasta, mas, verdade seja dita, seu trabalho em O Regresso não traz nada de especial. Por diversas passagens do filme, o mexicano parece querer brincar de Terence Malick e emula passagens e aspectos visuais de O Novo Mundo e de Árvore da Vida, graças à ajuda de Emmanuel Lubezki, fotógrafo desses dois filmes. Além disso, durante as divulgações de O Regresso, Iñárritu gritou aos quatro ventos que o longa tinha que ser visto num templo. Não, meu caro, seu filme não é para tanto. Basta agora a Academia não querer alimentar novamente este ego tão inflado e reconhecer o melhor cineasta entre os indicados. Claro que estou falando de…

George Miller. Nos últimos anos, Hollywood tem demonstrado imensa falta de originalidade e enchido a tela com sequências e refilmagens despretensiosas. Assim, a notícia de que George Miller estava produzindo o quarto filme da série Mad Max, iniciada em 1979, foi recebida com desconfiança. Tudo mudou com a premiere do filme no último Festival de Cannes, em que o longa foi aplaudido de pé pelos afortunados presentes na sessão. Com uma história ágil, visual arrebatador e ousadia suficiente para relegar o seu personagem título a coadjuvante, colocar mulheres, lideradas com garra por Charlize Theron, à frente de um universo apocalíptico dominado por homens, Miller deixou todos de boca aberta. Com o novo Mad Max – Estrada da Fúria, o veterano cineasta demonstrou que um filme de ação pode ser profundo, sim, e ter um subtexto repleto de críticas sociais e políticas, como lideres ditatoriais, crise hídrica e machismo. Trata-se de cinema da melhor qualidade. Esta é a sua primeira indicação na categoria de direção, mas ele já tem um Oscar de animação, por Happy Feet. Em um mundo perfeito, a estatueta de Melhor Diretor não escaparia de suas mãos, mas como estamos falando de Academia, existe um Iñárritu no caminho de Miller.

miller

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Jornalista, fã incondicional de Nick Hornby e coautor do livro inédito Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Ainda não viu nada melhor que Asas do Desejo, de Wim Wenders... Mas Beleza Americana chegou perto. e-mail: cristiano@setimacena.com