Oscar 2016: A ‘segunda divisão’ entre os indicados a Melhor Filme

Olá, amigos! Já passou da hora de tirarmos a poeira desse site e nada melhor que o Oscar pra dar uma agitada nessa bagaça. Ao longo da semana, postaremos textos sobre as principais categorias e, no final, nossas já tradicionais apostas para o prêmio mais tradicional e branco do cinema (risos), que acontece no próximo domingo (28).

Aliás, por que é que a gente ainda dá tanto valor ao Oscar e o considera como a mais relevante das premiações se ele não se esforça minimamente para, de fato, ser relevante? E nem estou falando apenas da falta de representatividade tão discutida nas últimas semanas, mas também na forma como a própria Academia enxerga o cinema. Tudo bem, eu sei, o prêmio é focado na indústria americana e lá os caras não costumam pensar muito no cinema como arte, mas como um produto, como negócios. De toda forma, há inúmeras maneiras de a Academia repensar alguns de seus costumes e até mesmo favorecer os negócios, mas parece que os caras acham que estão bem da forma que estão.

Uma dessas melhorias, inclusive, poderia ter uma ligação com as categorias que irei tratar nesse post e que chamei, ironicamente, claro, de “segunda divisão”: Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Documentário e Melhor Animação. Pois bem, quantas vezes vimos um filme estrangeiro concorrer ao Oscar de Melhor Filme (respondo: oito, mas em 88 cerimônias!), e uma animação (três vezes: A Bela e a Fera, quando a categoria de Melhor Animação ainda não existia, Up: Altas Aventuras e Toy Story 3) e um documentário concorrendo a melhor filme? Nunca. Isso mesmo, em 88 anos de Oscar, nunca um documentário sequer foi indicado ao principal prêmio da noite. E veja bem, todo ano, a categoria de Melhor Documentário traz pelo menos um ou dois filmes que, facilmente, são melhores que alguns dos indicados ao prêmio principal. Inclusive esse ano.

Entre as animações e filmes estrangeiros, embora já tenha acontecido algumas poucas vezes, ainda assim é raro ver algum filme entrar na categoria principal. E não é por falta de qualidade, com certeza. A questão é que, para além da campanha (e não podemos nos esquecer que o Oscar é como uma corrida presidencial, na qual os candidatos tentam a todo custo [mesmo!] angariar votos), a Academia parece pouco interessada em dar o devido reconhecimento a certos tipos de filme. Muito provavelmente, com a desculpa de que já possuem uma categoria própria para concorrerem e serem premiados. Uma pena.

Enfim, mas como isso não vai mudar tão cedo, vamos logo ao que interessa, por ora.

Melhor Animação

Entre os indicados a Melhor Animação esse ano, temos Divertida Mente, As Memórias de Marnie, Shaun: O Carneiro, Anomalisa e o brasileiro O Menino e o Mundo. Curiosamente, quatro dos indicados são produções de estúdios grandes e consagrados: Pixar, Ghibli, Aardman e Paramount, respectivamente. O “primo pobre” entre os nomeados é justamente o longa dirigido por Alê Abreu, da produtora Filme de Papel.

Mas não vá pensando que isso tira qualquer chance do longa trazer para o Brasil essa estatueta inédita. Muito pelo contrário, me arrisco a dizer que, se há alguma possibilidade de Divertida Mente amargar uma derrota, embora seja pouco provável, é justamente para O Menino e o Mundo. O longa faturou dois prêmios no Festival de Annecy, o mais importante da animação, além de ter vencido a categoria de Filme Independente no Annie, o Oscar da animação. Ou seja, O Menino… não tem nada de azarão e o fato de não ser um filme de “grife”, como seus concorrentes, só conta pontos a seu favor.

O Menino e o Mundo, de Alê Abreu

O Menino e o Mundo, de Alê Abreu

Outra curiosidade entre os indicados nessa categoria é o fato de que quatro deles possuem uma boa dose de melancolia, direcionada especialmente para o público adulto. Divertida Mente, Anomalisa, As Memórias de Marnie e O Menino e o Mundo tratam de temas como a depressão, a inadequação com o mundo, a separação e a ausência de pais e familiares, etc. Isso mostra como, de fato, já há algum tempo os filmes de animação deixaram de ser exclusivamente pensados para crianças. A própria Pixar se consagrou por realizar longas com roteiros que possuem várias camadas de compreensão, para atrair os públicos infantil e adulto.

Uma característica que valoriza ainda mais essa categoria é o fato dela apresentar diversas técnicas de animação, como computação gráfica (Divertida Mente), animação tradicional feita à mão (As Memórias de Marnie), stop-motion com massinha (Shaun: O Carneiro) e com personagens criados em impressoras 3D (Anomalisa), além de desenhos feitos a lápis, giz de cera, pinturas e colagens (O Menino e o Mundo). Ou seja, se há uma categoria na qual facilmente podemos enxergar o quão criativos e variados podem ser os filmes, é essa. Mesmo assim, esses filmes continuam presos, na maior parte dos casos, a apenas ela. Tá na hora de acordar, Academia!

Melhor Documentário

Na categoria de Melhor Documentário desse ano temos duas cinebiografias de cantoras, Amy e What Happened, Miss Simone?, um filme sobre as manifestações populares na Ucrânia, Winter On Fire, outro sobre a organização de grupos paramilitares no México para combater o narcotráfico Cartel Land e a continuação do renomado documentário O Ato de Matar (que também concorreu a o Oscar, há alguns anos), O Peso do Silêncio.

Tanto Amy quanto What Happened, Miss Simone? são cinebiografias tradicionais sobre as cantoras Amy Winehouse e Nina Simone, respectivamente. Ambos se destacam pelo vasto material de arquivo, além das entrevistas com pessoas próximas às duas retratadas. Os longas traçam um perfil bastante abrangente de suas carreiras, do início até as respectivas mortes, e tentam desvendar não apenas as nuances artísticas de cada uma, mas também as particularidades que a vida fora dos palcos e dos estúdios possuía e que, positiva ou negativamente, influenciaram a carreira e o destino triste e trágico de ambas.

What Happened, Miss Simone?, de Liz Garbus

What Happened, Miss Simone?, de Liz Garbus

Amy se sai um pouco melhor nesse sentido, e é o grande favorito da categoria, já que What Happened, Miss Simone? fica devendo alguns pontos importantes sobre a vida de Nina, como o fato dela ter tentado matar com um tiro um executivo de gravadora e também tenha atirado, dessa vez com uma arma pneumática, no filho de um vizinho, pois ele estaria atrapalhando sua concentração. O filme ainda gerou algumas críticas negativas quando foi lançado pelo fato de “pegar leve” na entrevista com o ex-marido de Nina, que abusava dela física, psicológica e profissionalmente.

Outros dois documentários que apresentam certa semelhança em sua forma são Winter On Fire: Ukraine’s Fight for Freedom e Cartel Land. Os dois possuem um estilo de filmagem muito próximo da ação, documentando quase como uma reportagem in loco as manifestações populares que apoiavam a aproximação das relações entre a Ucrânia e a União Europeia e o combate dos cartéis de tráfico de drogas no México, respectivamente. Em ambos, a proximidade dos documentaristas da ação é tanta que, em vários momentos, eles se veem no meio de tiroteios, inclusive com o registro de algumas mortes.

Winter On Fire: Ukraine's Fight for Freedom, de Evgeny Afineevsky

Winter On Fire: Ukraine’s Fight for Freedom, de Evgeny Afineevsky

Winter On Fire, inclusive, pode ser considerado uma versão mais hardcore do também nomeado ao Oscar The Square, que retratou as manifestações na praça Tahrir, no Egito, durante a Primavera Árabe, que derrubou o ditador Hosni Mubarak. Os protestos na Ucrânia chegaram a receber o nome de Primavera Ucraniana, em referência ao ocorrido no Egito, além do nome “Euromaidan”, em referência à Maidan, o nome da Praça da Independência de Kiev, que foi o local de concentração da maior parte das manifestações no país, assim como a praça Tahrir foi no Egito.

Fechando essa fortíssima categoria, temos O Peso do Silêncio, sequência de O Ato de Matar, que há alguns anos mostrou ao mundo o horror do genocídio cometido por grupos paramilitares na Indonésia, sob a guarida do próprio Estado, que vitimou milhões de oposicionistas ao governo militar nos anos 1960, tendo todos eles sido acusados de comunistas. O Peso do Silêncio, por sua vez, retrata o encontro de um homem com alguns dos gângsteres, como são conhecidos por lá, responsáveis pelo assassinato brutal de seu irmão. É chocante ver como esses criminosos são apoiados pelo Estado e pela população e são considerados heróis nacionais por terem, teoricamente, salvado o país dos “comunistas”, assassinando milhões de pessoas.

Filme Estrangeiro

Antes de a lista final de indicados ao Oscar ser divulgada, era nessa categoria que morava a esperança do Brasil em receber uma indicação ao prêmio, com o longa da cineasta Anna Muylaert, Que Horas Ela Volta?, que infelizmente ficou de fora. Em contrapartida, fomos agraciados com a indicação de O Menino e o Mundo para animação, como vimos ali em cima. Aqui, o único latino-americano nomeado foi o colombiano O Abraço da Serpente. O acompanham na categoria, o jordaniano O Lobo do Deserto, o dinamarquês Guerra, o francês (pero no mucho) Cinco Graças e o grande favorito, o húngaro O Filho de Saul.

O Abraço da Serpente mostra a relação de desconfiança das tribos indígenas da região da Amazônia colombiana com os homens brancos. Falei um pouco melhor sobre o filme aqui, quando o vi na Mostra de São Paulo, mas é interessante ver a dinâmica da relação entre povos tão diferentes e perceber o quanto nós, brancos, agimos com tanto egoísmo e arrogância (além da brutalidade, claro) ao longo de séculos com os povos indígenas. É triste ver como essa mancha na nossa história é escondida e não somos sequer incentivados a reconhecer que não fomos os primeiros a pisar na América.

O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra

O Abraço da Serpente, de Ciro Guerra

O drama dinamarquês Guerra mostra parte da missão de um oficial durante a guerra do Afeganistão e o fato de que, em uma das missões em que a equipe que comanda é enviada, eles acabam assassinando vários inocentes ao confundirem a casa onde moravam com o esconderijo de um dos membros do Talibã. Esse militar é dispensado de seus serviços e seus próximos meses ficam marcados pelo julgamento que pode condená-lo por essas mortes.

Já o jordaniano O Lobo do Deserto mostra a tentativa de sobrevivência de um garoto beduíno que, junto de seu irmão mais velho, serve de acompanhante no deserto para um oficial britânico, durante a Primeira Guerra Mundial. Ao longo do filme, o garoto precisa conquistar uma quase instantânea maturidade, para superar os perigos que essa viagem pode trazer. Apesar de o longa ser o mais fraco entre os concorrentes, é preciso destacar a qualidade do elenco, especialmente o menino Theeb, que é praticamente inteiro composto por atores amadores.

Para representar o país na disputa ao Oscar de Filme Estrangeiro, a França abriu mão do vencedor da Palma de Ouro em Cannes, Dheepan, de Jacques Audiard (diretor do último filme francês indicado, O Profeta), e optou pelo turco Cinco Graças, da única cineasta mulher nessa categoria, Deniz Gamze Ergüven. O longa mostra um pouco da realidade das mulheres na Turquia ao focar sua história em cinco irmãs que tentam levar uma vida feliz e moderna em meio a uma cultura ainda muito conservadora. A cumplicidade e companheirismo dessas garotas presas a costumes e tradições familiares faz de Cinco Graças um dos filmes mais bonitos e singelos desse Oscar.

O Filho de Saul, de László Nemes

O Filho de Saul, de László Nemes

Fechando a categoria, o grande favorito O Filho de Saul parece ter a faca e o queijo nas mãos para sair no domingo com sua estatueta. O longa de estreia de László Nemes tem faturado todos os prêmios possíveis da temporada nessa categoria, além do fato de ter saído do Festival de Cannes do ano passado com o Grande Prêmio do Júri, considerado o segundo mais importante do festival. E há quem diga que essa derrota só aconteceu porque Dheepan, o vencedor da Palma, trata do tema da imigração, que estava (e ainda está) em efervescência na Europa justamente no período do festival.

Embora O Filho de Saul seja o favorito incontestável (para ler mais sobre o filme, clique aqui), é importante ressaltar que essa categoria pode trazer surpresas, ainda que seja pouco provável, já que ela possui uma particularidade que as demais não possuem. Para eleger o melhor filme em língua estrangeira, só são contabilizados os votos dos membros da Academia que assistiram a todos os indicados da categoria. Ou seja, para validar sua escolha, o votante precisa comprovar que assistiu a todos os filmes. Com isso, o número de votantes nessa categoria é bem menor que nas demais, e a contagem final pode não corresponder ao “pensamento médio” da Academia.

Mas, apesar disso, são vários os fatores que apontam que, dificilmente, O Filho de Saul deve perder esse Oscar. Além de ser um ótimo filme, tem como tema o Holocausto, assunto caro à Academia, assim como vem sendo tratado desde Cannes como o favorito ao Oscar e em nenhum momento qualquer outro filme ameaçou essa hegemonia. A campanha de O Filho de Saul é fortíssima e deve ser recompensada com o careca dourado no próximo domingo.

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Jornalista e crítico de cinema. Coautor do livrorreportagem Cine Belas Artes: Um Olhar Sobre os Cinemas de Rua de São Paulo. Acha O Poderoso Chefão o melhor filme do mundo, mas torce todos os dias para assistir a algum que o supere. Ainda não encontrou, mas continua buscando. E-mail: carlos@setimacena.com // Letterboxd: @CarlosCarvalho